Nosso ecossistema evoluiu gradualmente de construir para o Brasil para construir a partir do Brasil. E agora estamos vendo uma geração que está se tornando global mais cedo, inclusive nascendo global desde o primeiro dia.
De São Paulo ao Vale do Silício, esses empreendedores estão levando soluções aplicadas em um dos mercados mais complexos e exigentes do mundo para os principais centros globais de inovação.
Toda geração de empreendedores carrega uma pergunta central. Para a primeira geração apoiada pela Endeavor no Brasil, essa pergunta era: grandes empresas podem nascer aqui?
Começamos apoiando uma geração de pioneiros: pessoas movidas pela crença de que grandes empresas podiam nascer aqui, e que, ao fazer isso, poderíamos construir uma cultura empreendedora no Brasil. Essa abertura de caminho foi fundamental para gerar os primeiros exemplos e inspirar empreendedores da geração seguinte.
Esse movimento foi impulsionado por alguns fatores macroeconômicos:
Entre 2002 e 2012, cerca de 35 milhões de brasileiros ascenderam à classe média
Em 2016, apenas 66,1% dos brasileiros acessaram a internet. Em 2024, esse percentual chegou a 89,1% da população com 10 anos ou mais.
E o dispositivo que viabilizou isso foi o smartphone. Em 2014, 80% das famílias já acessavam a internet pelo celular. Hoje, 9 em cada 10 brasileiros têm um smartphone.
Regulações do sistema financeiro criaram um ambiente para proliferação de fintechs. Hoje, 160,5 milhões de pessoas físicas já realizaram ao menos uma transação Pix. Mais de 80% das transações bancárias no país já são feitas por canais digitais, majoritariamente pelo celular.
Em 2007, onze investidores diferentes aplicaram dinheiro em startups no Brasil. Em 2021, até setembro, foram 544, com fundos como Softbank, Tiger Global, Tencent, Riverwood Capital, Accel, Ribbit Capital e QED Investors entre eles.
Observamos esse movimento de gigantes nacionais com a convergência de três forças simultâneas: uma demanda nova e massiva impulsionada pela nova classe média e uso do smartphone, com uma infraestrutura regulatória que se abriu (regulação + Pix) e um capital que chegou disposto a apostar em empresas brasileiras. Quando essas três coisas se encontraram, as empresas brasileiras não precisaram sair do Brasil para vencer. O Brasil havia se tornado grande o suficiente para elas.
Vemos consumer tech como a primeira onda de inovação em mercados emergentes. Essas empresas resolveram fricções do dia a dia em escala: pedir um carro, pedir comida, pagar contas.

CONSUMER TECH B2C

tech enable industries

B2B SOFTWARE

Frontier Technology
Os fundadores que enxergaram isso cedo criaram plataformas para resolver os desafios mais básicos do cotidiano: pedir um carro, pedir comida, pagar contas. Assim surgiram iFood, Netshoes, 99, Stone, OLX, Guiabolso, Nubank.
As fintechs, em especial, provaram algo que transcendeu o setor: uma empresa construída aqui, para resolver um problema daqui, podia se tornar referência global sem precisar deixar o país para isso. O Nubank é o maior case de uma fintech que se tornou gigante ao resolver um problema complexo do sistema financeiro brasileiro antes de internacionalizar.
Essas empresas não precisaram sair do Brasil para vencer. O mercado doméstico era grande, exigente e suficiente, e a aposta em construir aqui, quando não havia garantia de que daria certo, já era um ato de coragem.
Neste período, o ecossistema alcançou patamares que antes pareciam distantes demais. As primeiras grandes rodadas. Os primeiros IPOs. Os primeiros M&As relevantes.
O legado dessa geração não está só nas empresas que construiu. Está no músculo que desenvolveu e transmitiu para as gerações futuras: grandes empresas podiam nascer no Brasil. Fundadores acostumados a operar sob pressão regulatória, com infraestrutura precária e consumidor exigente, saíram desse processo com uma capacidade de execução que poucos mercados conseguem formar. A complexidade do Brasil, por muito tempo vista como obstáculo, começou a ser reconhecida como vantagem competitiva.
Empreendedores brasileiros escalam suas empresas conciliando duas forças: um mercado doméstico de grande escala e a ambição de capturar oportunidades globais.
O fato de o Brasil ter um mercado interno grande e dinâmico, gera um espaço para teses domésticas relevantes se desenvolverem, mas também um certo conforto dos empreendedores em adiar planos de expansão. Diversos empreendedores estão começando a romper essa barreira e elevando a marca do nosso país no mundo.
Em nosso estudo “Going Global” identificamos que 60% dos unicórnios brasileiros chegaram a US$ 1 bilhão com teses predominantemente domésticas, diferentemente dos seus pares latino americanos.
Então, ficamos com a pergunta: quais fatores macroeconômicos e culturais permitiram que mais empresas de tecnologia brasileiras se tornassem globais?

O Brasil é a maior economia da América Latina e o único país do hemisfério sul com mais de 200 milhões de habitantes. Empreendedores viram isso como validação: quem resolve um problema para 200 milhões de pessoas consegue resolver um problema de verdade em escala.

A chegada de fundos globais a partir de 2019 mudou o patamar de ambição do ecossistema. Capital em escala permite que uma empresa pense globalmente desde cedo, e foi exatamente o que a nova geração de fundadores passou a fazer.

Um fluxo crescente de fundadores e talentos entre o Brasil e os principais hubs globais criou uma correia de transmissão de conhecimento, referências e ambição.

A aceleração da troca de conhecimento entre ecossistemas via eventos, aceleradoras, comunidades online e programas de apoio reduziu o tempo que um empreendedor brasileiro levava para aprender o que funciona em mercados mais maduros.

O ambiente institucional brasileiro, embora oneroso, também fomenta uma cultura de flexibilidade relacional e criatividade para contornar obstáculos estruturais. Quem aprendeu a operar com margens apertadas, regulação imprevisível e infraestrutura precária chega ao exterior com uma tolerância à adversidade.

A primeira geração de empreendedores provou que era possível construir no Brasil. Essa prova foi dada. A geração seguinte herdou os casos de referência, os investidores, as redes e a confiança, e passou a começar de um patamar diferente, trilhando caminhos globais.
O que permitiu que empresas brasileiras se tornassem globais não foi só o tamanho do mercado interno. Foi a criação de uma correia de transmissão entre o local e o global. Capital que entrou com rede. Talentos que circularam e voltaram. Conhecimento que saiu de hubs globais e circulou pelo ecossistema.
O mesmo playbook que funcionou no Brasil começou a funcionar além dele. Construir em um mercado complexo. Resolver problemas reais em escala. Crescer com disciplina. Os fluxos de capital, de pessoas e de conhecimento impulsionaram essa transformação.
Uma nova onda de fundadores passou a aplicar esse playbook com um mercado global em mente desde o início, com capital transfronteiriço, equipes distribuídas por diferentes países e produtos construídos para atravessar fronteiras.
O processo de expansão geográfica geralmente se inicia no mercado mais competitivo do mundo: os Estados Unidos. Segundo nosso estudo, 63% dos empreendedores à frente de scale-ups que iniciaram uma jornada de expansão internacional escolheram o país como destino.
O que chama atenção, porém, não é só o tamanho dessa presença. É a motivação por trás dela: apenas 17% expandiu por saturação do mercado doméstico. Essa geração não foi para o mundo porque o Brasil deixou de ser suficiente. Foi porque o mundo se tornou possível.
A profundidade construída no Brasil se tornou o diferencial competitivo lá fora. Não apesar da complexidade do mercado doméstico, mas por causa dela.
Cada empreendedor que escala globalmente amplia a marca do Brasil no mundo e inspira a nova geração a seguir o mesmo caminho. Já temos vários exemplos de Empreendedores Endeavor brasileiros que fizeram essa jornada com êxito:
Brex, fundada por brasileiros Henrique Dubugras e Pedro Franceschi no Vale do Silício e recentemente adquirida pela Capital One por US$ 5 bilhões.
OneSkin, fundada por Carolina Reis e Alessandra Zonari e com base no Vale do Silício, desenvolveu uma tecnologia proprietária para reverter sinais biológicos do envelhecimento.
Birdie, fundada na Califórnia, por Alexandre Hadade, empreendedor serial com mais de duas décadas de experiência, a plataforma usa IA para transformar o feedback de clientes em insights estratégicos.
HeadOffice.ai, dos empreendedores Marco Carvalho e Ivan Zorn, plataforma de AI integra atendimento ao cliente, vendas, RH, gestão de projetos, CRM e gestão de contatos em uma única solução segura e sem código.
Wellhub, fundada em São Paulo, passou a ser liderada a partir de Nova York por Cesar Carvalho – +13 países e +20 milhões de colaboradores.
VTEX, fundada no Rio de Janeiro por Mariano Gomide e Geraldo Thomaz, tornou-se uma plataforma global – +44 países.
EBANX, de Curitiba, fundada por Alphonse Voigt, João Del Valle e Wagner Ruiz, construiu liderança na América Latina e abriu recentemente escritório em Singapura.
TRACTIAN, de Belo Horizonte, fundada por Igor Marinelli, Gabriel Lameirinhas e Leonardo Vieira, a plataforma de monitoramento industrial com AI moveu sua sede para Atlanta.
PISMO, fundada em São Paulo por Daniela Binatti, Juliana Binatti, Marcelo Parise e Ricardo Josuá com a convicção de que poderiam construir um produto global, foi adquirida pela Visa em 2023.
PIPEFY, de Curitiba, construída por Alessio Alionço sob a premissa de que não havia vantagem estratégica ligada à geografia, atende clientes em mais de 100 países.
NELOGICA, de Porto Alegre, fundada por Marcos Boschetti e Fabiano Kerber presente em 160 países e opera com um time distribuído em diferentes geografias.
BLIP, fundada em Belo Horizonte por Roberto Oliveira e Daniel Costa, é uma plataforma de inteligência conversacional com mais de 1 bilhão de usuários ativos mensais e presença em 120 países.
Rocket.Chat, fundada por Gabriel Engel em Porto Alegre, conta com mais de 12 milhões de usuários em 150 países e um portfólio de clientes que inclui o Banco Mundial, a Marinha dos EUA e a Credit Suisse.
Fabricio Bloisi, founder da Movile e ex-CEO do iFood, assumiu Prosus e Naspers, que opera em +100 países.
Não esperamos que toda scale-up brasileira seja global. Mas a parcela de empresas que enxergam a expansão internacional como parte central de sua estratégia de crescimento está aumentando de forma consistente.
E acreditamos que a geração que criou empresas globais na última década está inspirando a nova geração a trilhar esse caminho. Entre as scale-ups brasileiras fundadas entre 2020 e 2024, 33% já expandiu para algum mercado internacional e 29% planeja fazer isso como parte da estratégia de crescimento.
São empresas jovens, ainda construindo seu modelo doméstico, que já encaram o mercado global como premissa, não como recompensa.
Uma nova geração de empreendedores que não está escolhendo entre o Brasil e o mundo. Eles estão construindo negócios em ambos simultaneamente. As empresas são projetadas para escalar globalmente desde a sua criação, e não apenas após se provarem localmente.
O próximo capítulo da história de inovação do Brasil está sendo construído além das fronteiras desde o primeiro dia. Estamos vivendo na era do empreendedorismo da diáspora, com empreendedores construindo negócios globais em grandes hubs de inovação do mundo, impulsionados pelo fluxo de capital, talento e conhecimento.
Conhecido por exportar commodities, hoje o Brasil está se tornando um exportador de talentos. Mais do que uma tendência na mobilidade profissional, essa presença representa uma expansão do próprio ecossistema brasileiro, que agora está se conectando a novos mercados, fontes de capital e redes de conhecimento.
A diáspora de brasileiros em tecnologia está em 138 cidades, distribuídas por 31 países e 5 continentes.
Empreendedores de diáspora estão se estabelecendo como uma força global, fortalecendo ecossistemas de inovação muito além das fronteiras nacionais. Nos Estados Unidos, 55% dos unicórnios foram fundados por imigrantes.
A inteligência artificial está acelerando essa mudança de forma estrutural. Produtos desenvolvidos uma vez podem ser distribuídos em múltiplos mercados. Equipes pequenas operam em múltiplas geografias. As barreiras de entrada são menores do que em qualquer momento anterior.
E os Estados Unidos têm sido o principal mercado para esse movimento. Em 2025, 79% do capital global direcionado a empresas de IA foi para os Estados Unidos.
A maioria dos fundadores brasileiros em diáspora estão posicionados nesse epicentro. De 140 empreendedores mapeados nos EUA, 40% estão na Califórnia.
A diáspora brasileira tem exportado a expertise desenvolvida em setores nos quais o país já construiu profundidade competitiva, especialmente em software e serviços financeiros. Quase metade dos empreendedores brasileiros da diáspora nos EUA já adotou a IA como núcleo do negócio.
Fonte: Brazil Tech Diaspora in the U.S. Endeavor Brasil, 2026.
Esses fundadores não estão escolhendo entre o Brasil e o mundo. Estão construindo em ambos ao mesmo tempo, usando as redes da diáspora para acessar capital, talento e distribuição globais.
Foi o que tornou possível que João Moura fundasse a CrewAI no Vale do Silício, uma das plataformas pioneiras em IA agêntica, e que José André Nunes fundasse a Vetto AI, construindo infraestrutura para treinamento de modelos com uma equipe que inclui talentos vindos do Google DeepMind.
Essa influência não é unidirecional. Ela volta para o Brasil na forma de referência, conexão e capital. Cada geração de empreendedores abre caminho para a próxima. Esses fundadores não estão apenas construindo empresas. Estão reinvestindo seu sucesso na próxima geração — mentorando, conectando, abrindo portas. É esse efeito multiplicador, de capital, referência e conexão, que está transformando o ecossistema brasileiro em algo maior do que a soma de suas empresas.
Cada fundador brasileiro empreendendo em escala global abre caminho para os próximos. O que essa geração está construindo não é só uma exportação de produtos ou tecnologia. É a exportação de uma mentalidade: a de que o Brasil pertence ao mapa global de inovação. A diáspora brasileira está expandindo nosso ecossistema, e todos crescemos como resultado disso.
Iana da Hora
Research & Content Associate
Karina Almeida
External Relations Manager
Daniella Mello
Director of Marketing & External Relations
Agradecimento a Laís Grilletti, content Strategist da Endeavor Global
Sobre Endeavor Brasil
Somos a Rede Global de Confiança de, por e para empreendedores — aqueles que sonham grande, crescem rápido e reinvestem seu sucesso. Guiada pela crença de que empreendedores de alto impacto transformam economias, a Endeavor tem como missão, desde 1997, construir ecossistemas empreendedores vibrantes em mercados emergentes e pouco atendidos ao redor do mundo.
A área de Research da Endeavor Brasil gera insights baseados em dados e estudos de caso práticos sobre os principais motores do ecossistema empreendedor brasileiro. Aproveitando a presença global da Endeavor, nossos estudos exploram os fatores que impulsionam o empreendedorismo de alto crescimento no país e os momentos decisivos da jornada do empreendedor, oferecendo aprendizados valiosos para apoiar a escala das empresas e o fortalecimento do ecossistema de inovação local.
Para mais informações, contate karina.almeida@endeavor.org.br