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Como uma viagem ao Tocantins me trouxe insights sobre polos de empreendimentos no Brasil

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Quando nos concentrar em fortalecer os poucos polos empreendedores que temos, antes de pensarmos na criação de novos, é a melhor solucação.

Fui no último feriado conhecer a Ilha do Bananal, no Tocantins, junto com minha esposa. Como outros parques brasileiros, é um local de rara beleza, pois fica na confluência de três biomas: Amazônia, Pantanal e Cerrado.

Junto com um guia, exploramos o parque a pé e de barco. Vimos diversas aves cujos nomes nunca ouvira falar. Nadamos com boto. Porém, após dois dias passeando pelos mesmos rios, comendo no mesmo restaurante de espetinho e dormindo em um hotel xexelento que combinava os prêmios de melhor e pior da cidade (por ser o único que havia ali), já queríamos ir embora.

Éramos os únicos turistas na cidade e o guia culpava a falta de desenvolvimento turístico na região aos poucos incentivos e investimentos do governo. Porém, eu não via falta de governo ali. O parque era relativamente bem mantido, as trilhas sinalizadas e as estradas que levavam de Palmas a Caseara estão em melhores condições que as do Litoral Norte de São Paulo.

Por outro lado, dava para perceber o dilema que um eventual empreendedor da região teria. Não faria sentido construir outro restaurante e novos atrativos na região, já que não teriam turistas suficientes para suprir a oferta incremental. Ao mesmo tempo, novos hotéis não são criados por não existirem atrativos para atrair tantos turistas.

Como resultado, acabamos gastando uma fortuna em uma viagem de privações. Curiosamente, com a mesma quantia empregada nesse passeio, poderia ter pego um avião até o meio de um deserto nos EUA, ficado em hotéis 5 estrelas, ido em shows espetaculares e ainda tentado minha sorte em um casino em Las Vegas.

O que faz um deserto americano destituído de grandes atrativos naturais ou culturais se transformar em um polo turístico muito maior que uma das maiores belezas naturais brasileiras?

A resposta: benefícios de rede advindos da existência de um cluster turístico na região.

Os clusters são aglomerações de empreendimentos correlatos que estão em uma mesma região e comunicam-se entre si, aumentando a eficiência do sistema como um todo.

Para o caso de Caseara, a existência de mais hotéis facilitaria a vida de novos restaurantes, que, por sua vez, beneficiariam os hotéis da região. Para o caso de empreendedores, o Vale do Silício congrega diversas startups, o que favorece a existência de Fundos de Venture Capital, que, por sua vez, facilitam a vida das startups da região.

Qual o papel então que governos têm para fomentar novos clusters? A resposta é, infelizmente: quase nada.

Vimos exemplos recentes do governo federal tentando criar um cluster naval-petrolífero no Brasil, mas  o desastroso resultado foi o encarecimento do custo de produção da Petrobrás e a contribuição para sua possível bancarrota, culminando com a dizimação desse recém-criado polo produtivo.

Podemos voltar muitos anos atrás com a ideia de se criar um polo industrial na Amazônia. Hoje, poucos discordariam de mim que, salvo algumas exceções, a principal indústria que se beneficiaria do polo é a de produção de etiquetas. Meu ponto resume-se a:

É muito tentador achar que o Estado terá o poder de criar um novo pólo industrial.

Mas por que insistir em algo que já deu errado tantas vezes? Se o governo se concentrar em não atrapalhar por meio de regulamentações complexas e burocracia e permitir uma interrelação entre pesquisadores de instituições públicas e iniciativa privada, já ajuda muito.

É notória a análise de que o Vale do Silício existe por causa da proximidade com Stanford, assim como a Rota 128 de Boston se desenvolveu por causa de MIT e de um complexo médico espetacular. Porém, pouco li sobre como o cluster de São Paulo e do Rio foi criado. Com isso, arrisco meu palpite.

Até 2009, era comum a comunidade brasileira dizer que não fazia sentido termos startups de alto impacto no Brasil, já que os bons iam para o Vale. “Você deve jogar onde tem campeonato” é uma frase que ouvi e que ecoava o sentimento da época. Era comum gestores de VC locais dizerem que o principal gargalo deles era a falta de boas empresas para investir.

Contudo, a partir de 2010, essa situação mudou. A crise financeira foi muito mais forte nos EUA e Europa do que no Brasil e, naquela altura, víamos um fluxo imigratório de centenas de profissionais altamente capacitados e muito motivados que se mudavam para o Novo Mundo em busca de ouro! Contudo, ao chegar aqui, descobriam que os bancos e private equities não contratavam gringos que não eram fluentes em português.

Alguns conseguiram ir para consultorias e outros tantos tiveram a brilhante ideia de começar um negócio por aqui, na maioria das vezes, emulando algo bem sucedido lá fora e inexistente no Brasil. Ao mesmo tempo, o Brasil era descoberto pelos investidores internacionais que viam um potencial por aqui não mais encontrado lá fora. Isso se traduziu na captação por gestores locais de quantias volumosas vindas dos gringos e de diversos locais investimentos por fundos baseados lá fora.

Pronto, estava criada a base para os clusters de São Paulo e Rio. Com essa fagulha inicial, o mercado nessas duas cidades começou a se desenvolver exponencialmente em um círculo virtuoso. Hoje, os gringos nem são mais uma parte tão predominante na comunidade empreendedora local, mas o benefício criado permanece.

Como então podemos desenvolver clusters em novas cidades/regiões? Na minha visão, há muito pouco a ser feito. Tentativas forçadas de criação de um novo cluster gerariam custos desnecessários ao sistema.

Um cluster surge de forma orgânica, com inúmeros fatores gerando reforço positivo um ao outro. Em geral, começa-se por uma “deformação no espaço-tempo” pontual, que gera a primeira faísca para o início da criação do círculo virtuoso, culminando com a criação do cluster. Em Las Vegas foi a permissão para cassinos, em São Paulo foi a imigração temporária dos gringos, em São Francisco e Boston foram as Universidades.

Chego então à minha conclusão: Clusters possuem benefícios de rede que regiões não clusterizadas não possuem.

Tentar montar uma nova rede de startups à força, em uma nova região, vai gerar desperdício para quem o tentar fazer. Mais ainda, se dividirmos um cluster grande em dois menores, ambos saem perdendo pelo menor ganho de rede gerado. Com isso, não deveríamos nos preocupar em criar novos clusters enquanto os existentes ainda não estiverem totalmente consolidados.

Quando chegar o momento, naturalmente novas regiões passarão a criar seus ecossistemas próprios. Afinal, forçá-los a surgir antes do tempo só prejudica a ainda nascente indústria de startups de alto impacto do Brasil.

Em outras palavras: vamos dar tempo ao tempo.

São Paulo e Rio mal se consolidaram como centro de empreendedores de alto impacto e muitos diriam que ainda não estão totalmente maduros. Vamos nos preocupar antes em garantir que o Brasil possa se provar como celeiro de boas startups antes de nos preocuparmos em descentralizar suas sedes.

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, Spectra Investments, Cofundador
Ricardo tem mais de 10 anos de experiência em diversas classes de ativos como Private Equity, Venture Capital, Real Estate, Infra e Distresses Assets. Trabalhou na GP Investimentos e posteriormente na Global Infrasctructure Partners, em Londres. Participou das compras dos aeroportos de Gatwick, London City, IPO da Gafisa, venda da ALL, criação do fundo de Real Estate da Prosperitas, entre outros. É administrador pela USP - curso completado em Harvard - e possui MBA de INSEAD Business School.

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  1. lucasbrase@outlook.com - says:

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    Olá ! O que falta no Brasil é uma visão de governo para encarar o Brasil como nação, desenvolvendo o país por regiões e não apenas por estados privilegiados, estruturar o país por completo, descentralizar os investimentos e serviços, controlar as fronteiras, fortalecer o mercado interno através de um estudo das necessidades de suprimentos da sociedade e da exportação somente do excedente.

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