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Universidade e empreendedorismo: fertilização aleatória – Parte II

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Universidade e empreendedorismo fertilização aleatória - Parte II

Empreendedorismo é um fenômeno de comunidades

[Para ler a Parte I deste artigo, acesse aqui]

O Brasil vestiu entusiasticamente o modelo de incubação, sem levar em conta que o mais importante não é o que acontece dentro da incubadora, mas o que se passa fora dela: a qualidade do ambiente externo e dos atores. Temos nichos universitários que desenvolvem pesquisa de alta qualidade, mas isso não é tudo. No Brasil são escassos os elementos essenciais: cultura empreendedora, capacidade de formar redes com o mundo empresarial e o terroir indispensável: regras comerciais, trabalhistas e tributárias adequadas, agilidade burocrática, oferta de dinheiro de risco, oferta de instrumentos em larga escala, informação abundante.

No seu livro “Economia das cidades”, a americana Jane Jacobs diz que ações municipais geram impactos maiores do que aqueles da esfera nacional. “Quanto maior for a quantidade de empresas locais, maior será a competição entre elas e maior será o crescimento regional da economia”. Isso significa que a vontade individual de empreender e o sucesso ou fracasso de uma empresa são influenciados sensivelmente pela cultura municipal. As pessoas veem o empreendedorismo de forma positiva quando percebem que indivíduos próximos, com os quais têm identidade, se transformam em empreendedores bem sucedidos. “Essa convivência facilita a comparação entre a expectativa de ganhos como empreendedor e como empregado, e ainda diminui a aversão ao risco”. A lógica é: se ele conseguiu, eu também conseguirei.

Toda cidade deve estar pronta para persuadir os habitantes a empreender e gerar estímulos para tanto. O acadêmico americano Richard Florida, que tenta decifrar as origens da capacidade de inovar, criou a expressão “Classe Criativa”, que, segundo ele, move as economias avançadas. “Personagens banidas pelo modelo industrialista, como artistas, excêntricos e inconformados de toda ordem, são atores centrais da inovação tecnológica”. Ele criou um indicador, o “Grau de Diversidade”, para medir a presença inspiradora e indispensável de artistas, músicos, lésbicas, gays e boêmios.

Ensino de empreendedorismo

Hierarquias em empresas, igrejas ou universidades são desenhadas para reproduzir modelos. Redes distribuídas, não hierarquizadas, em que todos têm o mesmo poder, estimulam a criatividade e são apropriadas à inovação. Empreendedores criam o futuro, algo que ainda não conseguimos transformar em conteúdo de ensino. A universidade, ao incorporar um campo de estudo, se coloca como centro de geração e disseminação de conhecimento nessa área. É a sua missão. No entanto, no empreendedorismo isso não acontece e jamais acontecerá.

Muitos dizem que empreendedores não gostam de escola. Outros acham que a escola atrapalha. O investidor americano Peter Thiel criou a bolsa “20 under 20”, que oferece 100 mil dólares para tirar alunos empreendedores de universidades e conectá-los em redes no Vale do Silício. Creio que não faz o menor sentido uma crítica à universidade, cuja concepção é irrepreensível. O fato é que, por sua natureza, universidades não são os locais ideais à preparação de empreendedores. A chave para se entender isso são as diferenças entre ensino e aprendizagem. O ensino, visto como transferência de conhecimentos, não se aplica à preparação de empreendedores, cuja atividade central, criar o futuro, não é traduzível em algoritmos ou em relações de causa e efeito. Não há certificação ou diploma para o empreendedor. Há milênios, empreendedores aprendem através da interação em redes descentralizadas, em que cada um busca o saber que lhe interessa. Na vida de um mesmo empreendedor, cada inovação é um recomeço; requer uma teoria específica, um caminho diferente.

O entendimento de que o espírito empreendedor tem origem nas práticas sociais de determinado grupo, principalmente no seu sistema de crenças e valores, nos induz a concluir que estratégias pedagógicas relativas à educação empreendedora devem enfrentar, no Brasil, desafios de mudança cultural. O aluno universitário já incorporou ao seu patrimônio cultural os valores de sua cultura, o que, no Brasil, certamente não significa empreender. Educação empreendedora dirigida exclusivamente aos adultos é consequência da crença do Brasil oficial segundo a qual o brasileiro que merece ser alvo de políticas públicas de excelência nasce aos 18 anos, do ventre da classe média alta.

A educação empreendedora na universidade dificilmente provocará mudanças culturais. Ela é coletora no seu alcance, já que o seu atributo é pinçar e apoiar quem já tem a predisposição para empreender, tarefa essencial e que gera bons frutos, mas que não é transformadora. Na década de 1990, a cada oferta semestral da disciplina de empreendedorismo que criei na UFMG, surgiram 5 novas empresas de software. Foram 25 em 5 anos. Esse índice não foi mantido por dois motivos: não se repetiram boas safras de alunos que queriam abrir empresas e a cultura universitária tende a asfixiar impulsos empreendedores.

Aeducação empreendedora deve ser introduzida na educação básica, tempo adequado àabordagem de valores. Ela não objetiva ensinar, mas libertar um potencial presente em todos nós, aguilhoado na escola, em casa e na rua. A sua principal tarefa deve ser ajudar o indivíduo a descobrir e desenvolver os seus talentos. Mas tem pequeno alcance a educação empreendedora oferecida por uma única escola, por uma única universidade. Ela deve envolver toda a cidade. A comunidade deve ser educadora e educanda. Isso é possível, viável e de baixo custo.

, Starta, Fundador
Criador dos maiores programas de ensino de empreendedorismo do Brasil. Na área universitária, a sua metodologia Oficina do Empreendedor  é adotada em cerca de 400 instituições de ensino. Na Educação Básica, (educação de 4 a 17 anos) a metodologia Pedagogia Empreendedora está presente em redes públicas de ensino em 140 municípios brasileiros, envolvendo cerca de 10.000 professores e 400 mil alunos. É também utilizada em outros países. Palestrante em cerca de 800 eventos no Brasil e keynote Speaker em mais de 50 eventos internacionais. É autor de 12 livros, entre eles o best-seller “O segredo de Luísa”, com mais de 300 mil cópias vendidas. É o autor brasileiro mais referenciado nos trabalhos acadêmicos no Brasil. É membro fundador do  World Entrepreneurship Fórum, criado na França, convidado como uma das 80 personalidades mundiais na área de empreendedorismo.  Membro fundador da Red EmprendeSur, Emprendedorismo y Innovación en America Latina.

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