Agricultura urbana é tendência mundial

Ana Ester Rossetto

Entenda porque o futuro do consumo de alimentos está na produção local e como aproveitar as oportunidades do setor.

Muitas cidades como Montreal, Zurique, Nova York e Berlim já tem suas fazendas de cultivo de alimentos. São Paulo também já conta com algumas iniciativas como a Horta Comunitária das Corujas. Pensando que 80% da população mundial viverá nas cidades até 2030 e sabendo que os custos econômicos e ambientais de produzir alimentos no campo estão cada vez mais altos (transporte, emissões, pesticidas e por aí vai), a ideia de produzir alimentos no local onde serão consumidos – nas próprias cidades – passa a representar um enorme campo de oportunidades para modelos de negócio inovadores.

Em Zurique os empreendedores do Urban Farmers desenvolveram tecnologia para cultivo urbano utilizando o sistema de aquaponia, que integra a plantação de vegetais ao cultivo de peixes em ciclo fechado, ou seja, os dejetos dos peixes viram nutrientes para as plantas.  O modelo de negócio é tanto a venda de módulos familiares em containers adaptados até a venda de uma fazenda completa para ser instalada nos telhados e abastecer supermercados, produzindo até 3,4 toneladas de peixes e 20 toneladas de vegetais! Também optaram por vender os serviços de consultoria e os insumos para o cultivo.

Já em Montreal, os empreendedores da LUFA apostaram no cultivo próprio em grande escala para a venda e entrega de cestas de vegetais frescos, cultivados na fazenda urbana de 31 mil m² instalada no telhado de um edifício. A fazenda atrai inúmeros visitantes e alunos das escolas locais motivados em reconectar com a origem dos alimentos que consomem. 

Mas a agricultura urbana de grande escala também demandará fertilizantes para ser produtiva, e de onde virão estes nutrientes? Terão de ser transportados por quilômetros do campo até a cidade? Se aplicarmos o conceito “do berço ao berço” (Cradle to Cradle em inglês), a resposta fica muito mais interessante, a reciclagem dos bio-nutrientes do lixo orgânico da própria cidade é a solução mais lógica. Segundo a ABRELPE, cerca de 54% dos resíduos das cidades brasileiras é lixo orgânico. Transformar esses resíduos em fertilizantes e fechar o ciclo integrando a produção de alimentos nas cidades e a reciclagem do lixo orgânico. Mas, ainda são poucos os exemplo de empresas recicladoras de bio-nutrientes urbanos. Como fazer isso em grande escala e garantindo padrões de qualidade e fornecimento aos futuros agricultores urbanos? Ótimo desafio aos novos empreendedores que buscam ter um negócio de grande potencial de crescimento e com propósito ambicioso.

 

Ana Ester Rossetto  é sócia fundadora e atual Diretora Executiva da EPEA Brasil