Pessoas não são parte da operação, são parte da estratégia

Daniel Pereira

Em uma empresa de impacto, as pessoas não são parte da operação, mas sim da estratégia. Conheça a rotina e as técnicas dos empreendedores de impacto que dedicam mais da metade do tempo formando o time.

Todos já sabemos que existe um grande número de funções humanas sendo substituídas pela tecnologia. Muito se avançou em capacidade e velocidade de processamento de dados complexos e processos mecânicos nos últimos anos.

Mas quando se trata de criatividade, ainda temos um longo caminho até conseguir substituir a capacidade do cérebro humano.

Por isso, não é exagero dizer que o fator mais importante de sucesso na jornada de um empreendedor encontra-se em sua equipe: é nela que reside o talento puro, o desejo de aprender e a habilidade de criar.

Não importa o segmento, indústria ou tipo de negócio que você possui, pessoas são a maior vantagem competitiva de qualquer empresa.

Estratégico ou Operacional?

Estratégia empresarial é uma forma de arte que exige constante criatividade e capacidade de adaptação para enfrentar novos desafios. Sem as pessoas certas, nada disso é possível.

Mas então, se nós devemos investir tempo e recursos para estar rodeados de pessoas incríveis, porque será que a prioridade dos processos de atração, seleção e treinamento costuma ser tão baixa?

Eu começaria dizendo que a equipe, infelizmente, não é considerada uma peça-chave do modelo de negócio da maioria das empresas. No seu business model canvas, sua equipe é uma pequena parte dos seus recursos-chave, certo? Provavelmente sim. Afinal, o senso comum diz que pessoas são parte da operação e não da estratégia.

Uma obsessão

Mas enquanto grande parte dos empreendedores pensa assim, os fundadores de startups de alto impacto do Vale do Silício pensam o contrário e investem 50% do seu tempo ou mais em recrutamento e seleção. É isso mesmo que você leu. 50% ou mais. Você investe quanto do seu tempo? Muitos empreendedores que conheço ainda trabalham em cima de meia dúzia de indicações e uma entrevista por candidato. Infelizmente.

Para esses empreendedores, sua equipe não chega nem a ser prioridade. Elas são uma obsessão.

Veja, por exemplo, Matt Mullenweg, fundador do WordPress. Para ele, contratação é o seu principal super poder. Mesmo depois de 13 anos, desde a criação do WordPress e mais de 20.000 currículos analisados, ele continua a participar ativamente desse processo.

Já Brian Chesky, CEO do Airbnb, diz que todo fundador deveria entrevistar e contratar pessoalmente os primeiros 100 funcionários de sua equipe, como ele mesmo fez. Esse processo é tão importante que, segundo ele, só deve ser delegado depois de treinar exaustivamente sua equipe de líderes para fazê-lo com a mesma qualidade que um fundador. Ainda assim, ele também ainda participa ativamente de inúmeras entrevistas e decisões de contratação.

O meu ponto aqui não é dizer que empreendedores devem entrevistar todo mundo. Mas sim de demonstrar que se trata da prioridade número 1 de uma empresa de impacto. Dar prioridade número 1 significa criar um processo bem estruturado, com quesitos de avaliação claros e decisão com o envolvimento de pessoas-chave. Só assim será possível montar um bom time, alinhado com o perfil desejado para compor a essência da empresa.

Talento Puro e Cultura Criativa

Outra dica muito valiosa é contratar com base no “raw talent” (que, em português, significaria talento puro). Raw Talent é o tipo de habilidade que uma pessoa não aprende, vem com ela. Se desenvolveu durante a formação, seja por causa da personalidade ou pela criação que teve de pais, amigos e avós. É o talento puro que permitirá que se alcance um desempenho muito maior do que qualquer currículo ou experiência prévia consegue dizer.

Entre os principais talentos puro, eu destacaria a criatividade, a curiosidade, a boa comunicação, bom relacionamento, capacidade analítica e organização de idéias.

E não é complicado analisar se um candidato os possui. Alguns exemplos de como descobrir podem começar com as seguintes perguntas:

Dê uma situação real da empresa para o candidato, coloque-o na frente de um computador com o Google aberto e peça para ele pensar em uma solução. Isso tudo somado é muito melhor do que saber onde ele trabalhou ou o que fez.

Mas esse raw talent só será proveitoso se você tiver uma cultura empresarial que o incentiva.

De nada adianta contratar pessoas criativas se dentro de sua empresa elas não terão espaço para propor idéias e sugerir novas soluções.

De nada adianta se sua empresa for extremamente hierárquica e burocrática, com multiníveis de aprovação.

Oportunidade de Crescimento

Mas recrutamento não é tudo. Um contínuo processo de desenvolvimento também faz parte desse jogo.

Jack Welch, ex-CEO da GE, diz que o RH não é para organizar festa de aniversário. Segundo ele, é um absurdo ter uma área de RH que tenha menos força que o departamento financeiro.

A melhor estratégia de motivação de funcionários não é bônus financeiros, mas sim o espaço e o incentivo para crescimento pessoal e profissional. Ao invés de pagar bônus, pague workshops e cursos online e offline de boa qualidade, quem sabe até fora do país e até mesmo fora da sua função e zona de conforto. Dê um Kindle (ou algum outro leitor eletrônico de sua preferência) e dê uma verba para compra de livros, monte uma estrutura de mentoria interna, traga mentores externos etc.

David Cohen, fundador da Tech Stars (uma das 3 maiores aceleradoras de startups dos Estados Unidos) disse recentemente em um artigo: “it’s a people game”. O time de uma empresa não é muito diferente de um time de futebol ou de um time basquete. Sem os melhores em campo não é possível vencer.

CAPITAL Humano

Precisa de mais convencimento? Veja a indústria de head-hunting, responsável por caçar talentos de outras empresas, que movimenta 400 bilhões de dólares em todo o mundo. Ou o número de aquisições de startups denominadas de acqui-hiring – estratégia de compra de empresas menores com o objetivo de contratar todos os seus talentos. Uma prática tão comum e crescente que já mereceu artigos no Business Insider, New York Times e CB Insights.

O capital humano passa a ter um peso muito maior na estratégia e modelo de negócios de uma empresa nos dias de hoje em relação ao passado. É preciso colocar as pessoas em primeiro lugar na sua estratégia empresarial.

Estou dizendo que você precisa contratar caçadores de cabeça, comprar startups ou ter equipes de RH completas? Não, o que estou dizendo é que você deve ter o recrutamento como uma das maiores (se não a maior) prioridades em seu negócio.

Estou dizendo que é fácil fazê-lo se você tem dinheiro? Também não. É bastante difícil e nem todo mundo se encaixa no perfil ou cultura da sua empresa. Mas se você conseguir fazer isso, aposte todas as suas fichas.

Só os melhores

E faça um bom trabalho para manter apenas os melhores. É provável que nem sempre você acerte e que, quando acertar, algum membro antigo da equipe demonstre que não conseguirá continuar na empresa.

Se isso ficar evidente, não demore, seja rápido em tomar uma decisão e retirá-lo. Uma equipe de campeões só funciona quando todos ali desempenham como tal.

Ao longo da sua jornada empreendedora, você estará constantemente gerenciando o “pool ideal de conhecimento”. Para pensar em soluções e pensar em novas estratégias, você precisará movimentar esse pool. Em muitos casos aumentar, mas em outros simplesmente mudar a combinação.

Por exemplo, você pode ser um varejo físico que precisa criar um e-commerce e portanto aprender sobre marketing digital. É provável que parte do seu pool atual aprenda sobre esse novo assunto, mas talvez não seja suficiente e portanto necessário trazer alguém de fora para esse pool. O mesmo é válido para tecnologia, para design, para branding e assim por diante.

Cabe agora a você parar de pensar em pessoas como parte operacional da sua empresa e começar a encará-las como estratégia. E que vença o melhor (time)! 😉

Para se aprofundar:

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