Gestão emocional na crise é possível?

Ana Carolina Rezende
Ana Carolina Rezende

Sócia da Lidehra Coaching & Desenvolvimento.

Gerenciar pessoas e empresas durante tempos de mudanças tumultuosas é uma das atividades mais difíceis de se enfrentar. O futuro é uma hipótese e, ainda há muita incerteza e informação desconhecida. Sabemos que lidar de forma serena com o incerto e desconhecido é privilégio de poucos. Neste artigo, vamos falar sobre como fazer a gestão emocional da sua equipe durante a crise. 

O novo normal não era tão normal assim 

Antes pandemia a gente já sentia os impactos na nossa saúde mental. Segundo os dados da OMS e da ISMA:

O tema já estava na nossa pauta e nós entramos na crise com alguns soldados já machucados. A gente tem que gerenciar esse débito técnico. Mas, como? 

Olhe para dentro de você primeiro

As emoções surgem, na maioria das vezes, por gatilhos externos. Logo, não tem como a gente falar de delas considerando apenas o contexto interno. 

É fato. A crise inédita que estamos vivendo afeta as emoções dos colaboradores. 

A pandemia nos provou que o mundo VUCA – volátil, incerto, complexo e ambíguo – é real e que existe um mundo VUCA dentro de nós, nossas emoções são voláteis, incertas, complexas e ambíguas.

Liderança na crise é gestão de diversos mundos VUCAs.

O objetivo do momento é manter a lucidez. Assim, as lideranças precisam levar em consideração duas condições:

  1. Estruturais: norte e permanência da empresa, clareza sobre o que se espera dos colaboradores e recursos para a entrega;
  2. Emocionais: informação, conscientização, ferramenta e acompanhamento.

Condições estruturais

Gestão de mudança e gestão de transição

A mudança é externa. Toda mudança externa gera mudanças internas, chamamos de transições.

A transição envolve importantes processos psicológicos – por exemplo, como os funcionários veem e se adaptam ao trabalho em homeoffice. Uma mudança pode acontecer da noite para o dia, enquanto uma transição pode demorar.

O livro Managing Transitions é base do trabalho para a gestão da crise, que engloba a gestão da mudança (externo) e a gestão de transição (interna). Existem três etapas para esse processo:

A primeira fase, Letting go, diz respeito a deixar ir tudo que passou. O que vivemos no começo de março jamais será vivido novamente, já entramos na fase de adaptação. Assim, Losing abrange a zona cinzenta que vivemos agora, em que não temos clareza do que vai acontecer mas sabemos que o formato que estávamos vivendo não faz mais sentido. E, por fim, Ending diz respeito a deixar pra trás esse momento de transição e entrar no “novo normal”, um novo começo.

Letting go – deixando ir

É preciso abandonar os velhos hábitos. Essa primeira fase é um fim e um momento de perdas e você precisa ajudar o seu time a lidar com isso. Por isso, alguns processos são importantes:

Como eu faço isso na prática? 

Losing – perdendo

Essa é a fase mais longa e não temos clareza para onde estamos indo, qual é o fim da ponte. O antigo se foi e o novo não chegou. Porém, sabemos que precisamos mudar. Dessa forma:

É a fase do ápice da ansiedade. A boa notícia é que se é o ápice, tende a melhorar.

Como eu faço isso na prática? 

Ending

É a fase em que saímos da transição e fazemos um novo começo. Nessa fase, as pessoas desenvolvem a nova identidade, experimentam a nova energia e descobrem o novo senso de propósito que faz com que a mudança comece a funcionar.

Assim, é preciso ter em mente os 4Ps:

Não é possível saber qual será o novo normal, mas será uma nova empresa. E isso demandará uma nova liderança. 

Condições emocionais

Temos uma série de respostas emocionais à crise e o líder precisa mapear como isso fica evidente nele como pessoa, nos outros líderes e nos colaboradores. Através desse mapeamento é feita uma análise da evolução dos sentimentos em todas as fases, principalmente nas duas primeiras.

Sentimentos mais comuns


Emocional

  • Irritabilidade
  • Choque emocional
  • Dormência emocional
  • Raiva
  • Tristeza
  • Depressão
  • Ansiedade exacerbada
  • Sentimentos de pânico
  • Medo
  • Sentimento de estar sobrecarregado

Físico

  • Dores de cabeça
  • Cansaço
  • Suor excessivo
  • Calafrios
  • Tonturas
  • Sede excessiva
  • Aumento de apetite
  • Aumento da frequência cardíaca
  • Pressão arterial elevada
  • Respiração rápida
  • Dor no peito
  • Dificuldade de respirar

Comportamento

  • Mudança nos padrões de comportamento
  • Mudança drástica na alimentação
  • Redução cuidados com higiene
  • Aumento ou redução drástica da interação com colegas
  • Perda de interesse no trabalho
  • Silêncios/ausências prolongadas

Cognitivo

  • Pensamento confuso
  • Dificuldade na tomada de decisão
  • Perda de atenção
  • Perda de concentração
  • Problemas com pensamentos mais abstratos
  • Dificuldade para fazer cálculo de cabeça
  • Memória disfuncional

 

 

Ansiedade recorrente

Em uma pesquisa que a Lidehra fez com 136 líderes para entender melhor como estavam sendo afetadas pelas mudanças, o sentimento mais recorrente foi ansiedade.

gestão emocional

A ansiedade é uma resposta adaptativa a adversidades ou desafios agudos e acontece de forma moderada na maioria de nós. O gráfico abaixo mostra que este sentimento é agravado quando o desafio percebido é maior do que a habilidade que acredito ter para vencê-lo.

gestão emocional

Adaptado da teoria do Flow, de Mihaly Csikszentmihalyi

Em um momento de crise sem precedente, chega a ser lógica a percepção de que não estamos preparados para vencê-la. A grande sacada disso tudo é que estamos falando de percepção de preparo e percepção de desafio. Isso vai depender muito da nossa habilidade de olhar diferentes perspectivas sobre ambos, ou seja, posso estar ansioso por algo que nem é tão relevante assim na realidade.

Leia o artigo completo: Liderando na crise: panorama, insights e recomendações

Nesse momento, os líderes e os colaboradores precisam desenvolver skills para enfrentar esse período. Assim, as pessoas aprenderão coisas novas na crise e sairão mais fortes.

Agilidade emocional é interagir com as emoções com curiosidade, aceitação e coragem para tomar decisões com base no que eu valorizo.

Susan David

Emoções apenas são

Nossas emoções apenas são. Não existe certa, errada, grande ou pequena. Elas são informações e informam o que valorizamos.

Cada um de nós, quando vai para o trabalho, tende a esconder as emoções. Isso gera um gasto de energia desnecessário, que poderia ser utilizado em outras questões. Assim, as lideranças precisam criar espaços seguros para que as pessoas sejam vulneráveis. 

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