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Não existem más ideias

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No início de um programa de cultura de inovação, é importante encorajar e lidar com todo tipo de ideias, por mais trabalho que isso possa gerar.

Uma vez, assessorando uma empresa que estava implantando um programa de ideias, eu falava que, para criar uma cultura de inovação, todos os funcionários devem ser estimulados a trazerem suas ideias e, para dar credibilidade ao programa, todos deviam receber uma resposta sobre as ideias propostas. Um dos membros da equipe me perguntou se um feedback negativo para alguém que deu uma ideia ruim não poderia inibir a disposição desta pessoa de voltar a contribuir com novas ideias no futuro. Eu perguntei então, o que é uma ideia ruim. Falei a todos então que não existem más ideias, todas as ideias são boas. Insisti bastante nisto, pois senti um certo desconforto deles em aceitar este paradigma.

Como que para me testar, me chamaram duas semanas depois para perguntar minha opinião sobre uma ideia que foi apresentada por um funcionário. A campanha era sobre sustentabilidade e este funcionário deu uma ideia simples para economizar papel toalha nos banheiros. Bastava subir os toalheiros meio metro acima de onde estavam. No começo ninguém entendeu, aí veio a explicação do funcionário: Quando a pessoa estica os braços para pegar o papel, o excesso de água escorre pelos braços e a própria camisa cumpre o papel de enxugar uma boa parte da água e a pessoa, assim, usa menos papel!

Eles me olharam com ar de desafio e me perguntaram: E então, você vai nos dizer que a ideia dele é boa? Aceitei o desafio e pedi para chamarem este funcionário. Quando ele chegou, pedi a toda a equipe do programa acompanhar nossa conversa. Depois de agradecer a participação no programa de inovação da empresa, pedi para ele responder algumas perguntas sobre sua ideia: O que você acha que as pessoas vão sentir com suas camisas molhadas? ‘Ah, mas é por uma boa causa, tenho certeza que eles não vão se importar!’. Você já consultou as pessoas sobre isso? ‘Bem, ainda não’. Pedi então que fizesse uma pesquisa com os colegas e, se possível uma experiência prática para observar a opinião das pessoas.

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Bem, não preciso nem dizer que ele nunca mais voltou, mas o recado ficou claro para a equipe. Por mais que a ideia seja ruim, não cabe a eles julgarem isso, pois isso gera um estímulo negativo e inibe a participação das pessoas. Pode dar mais trabalho, mas é preciso que o próprio dono da ideia chegue à conclusão que sua ideia não é tão boa quanto parecia. E isso é feito por meio de perguntas que forcem a pessoa a repensar a sua ideia. Eventualmente ele virá com respostas aos seus questionamentos e, de duas uma, ou ele de fato te convence que sua ideia é boa ou ele acaba se convencendo que sua ideia não é boa. Quando o próprio dono da ideia mata a própria ideia, ele não vai se desestimular a continuar participando do programa.

Esta é a parte mais trabalhosa no início de um programa de cultura de inovação, mas é também um processo educacional. As pessoas, estimuladas, vão refinando seus critérios e vão trazendo cada vez mais propostas mais consistentes, maduras e estruturadas, e este trabalho de lidar com ideias ruins diminui bastante com o tempo. Não se esqueça: Não mate as ideias das pessoas, deixe que elas mesmas as matem.

 

Marcos Hashimoto é doutor em Administração pela EAESP-FGV, professor e coordenador do Centro de Empreendedorismo da FAAP e pesquisador do Mestrado Profissional da Faccamp.

 

 

 

Doutor em Administração de Empresas pela EAESP/FGV, Professor pesquisador do Mestrado Profissional em Administração da Faculdade Campo Limpo Paulista. Associado-fundador e tesoureiro da Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Pequenas Empresas. Consultor e palestrante em negócios e empreendedorismo corporativo. Foi Coordenador do Centro de Empreendedorismo da FAAP e professor da Escola São Paulo. Criou e coordenou o Centro de Empreendedorismo do Insper. Exerceu cargos executivos em multinacionais como Citibank e Cargill Agrícola.
www.marcoshashimoto.com

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