Como as health techs estão cumprindo sua promessa de inovação

Marc Cho
Marc Cho

Responsável por busca e seleção dentro da vertical Healthcare na Endeavor Global.

No meio de uma crise, poucos diriam que nós, cidadãos de 2020, teríamos algumas vantagens. Vemos o mundo se adaptar de uma maneira que nunca poderia ter acontecido antes: trabalhamos remotamente, brindamos aniversários por uma tela e recebemos suprimentos em nossa porta através de um clique. 

O gerenciamento da pandemia no século XXI tem uma marca própria: a tecnologia. Isso não é uma mera conveniência, mas sim, uma forma de  impedir a propagação da doença. 

Temos uma caixa de ferramenta de combate mais robusta do que qualquer geração antes de nós.

Inovações nas áreas de medicina e saúde pública são a espinha dorsal desta caixa de ferramentas. No entanto, sabemos que as health techs têm uma capacidade de impacto limitada pela falta de estruturas éticas e de regulamentação para gerenciar a implantação das suas soluções. 

Por exemplo, é possível habilitar nos celulares o rastreamento de contato, isso foi implementado com sucesso na Coréia do Sul e em alguns outros poucos países. Imagina a situação: dois estranhos, Tony e Jackie, almoçam nas extremidades do mesmo banco em um parque. Neste momento, seus telefones trocam sinais, evidenciando que estão próximos. Dias depois, Tony testa positivo para o Covid-19. E, assim, com a tecnologia, autoridades da saúde conseguem alertar – e até colocar em quarentena – não somente Jackie, mas todos que cruzaram seu caminho nos últimos dias, como sua filha e os passageiros do mesmo vagão de metrô usado por ela. 

Invasivo e até distópico, certo? Mas, pode salvar vidas de muitas pessoas. A pergunta de um milhão de dólares é: como encontrar a chave do sucesso – ou, também, encontrar seu álcool em gel, como algumas pessoas do nosso ecossistema estão parafraseando.  

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(1) Thomaz Srougi, cofundador e presidente do Conselho dr.consulta; (2) Aaron Gani, fundador e CEO da BehaVR; e (3) Amir Barsoum, fundador e CEO da Vezeeta.

Sendo assim, conectamos com três empreendedores Endeavor, que estão na vanguarda da inovação médica, para compartilharem suas perspectivas da crise: como a área da saúde está mostrando o valor, quais são as limitações e como estão lidando com os riscos das novas tecnologias. Quais os principais desafios para a adoção em massa dessas tecnologias? Quais adaptações são duradouras e quais são passageiras? E o principal: o que podemos fazer para nos preparar melhor para a próxima grande crise na saúde?

Como responsável do portfólio de saúde da Endeavor, que abrange 55 empresas de 22 mercados, tive o privilégio de observar a forma única, potente e às vezes pouco ortodoxa em que os empreendedores dão vida à tecnologia. Sabemos que agora as bolas de cristal estão nubladas, mas apostamos na marcha constante da inovação.

Os empreendedores à frente das health techs

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dr. consulta


Thomaz Srougi é co-fundador e presidente do Conselho da dr.consulta, que oferece atendimento médico para famílias de baixa renda e sem plano de saúde em três estados brasileiros. Com sede em São Paulo, é hoje o maior provedor privado de cuidados primários do Brasil, atendendo mais de 1,7 milhão de pacientes em mais de 50 clínicas físicas e pelo dr.consulta online.

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BehaVR


Aaron Gani é fundador e CEO da BehaVR, uma empresa que oferece bem estar e melhorias para a saúde através da realidade virtual. Ao longo de sua carreira, Aaron sempre esteve na vanguarda dos serviços financeiros e de saúde, inclusive, atuou como diretor de tecnologia da Humana, uma organização de cuidados gerenciados da Fortune 50.

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Vezeeta


Amir Barsoum é fundador e CEO da Vezeeta, uma plataforma digital com sede em Dubai que atende mais de 4 milhões de pessoas no Oriente Médio e na África oferecendo agendamentos, telemedicina e delivery de medicamentos. Amir é membro do Conselho da Endeavor Egito, foi consultor da McKinsey & Co. e chefe de estratégia da AstraZeneca. 

Como as health techs conseguem equilibrar saúde pública e privacidade de dados?

Tecnologias digitais, com o consumidor no centro, estão cada vez mais difundidas no setor da saúde. Agora, mais do que nunca, a telemedicina chegou pra ficar. E a “desospitalização” está cada vez mais em alta: dispositivos estão começando a complementar os cuidados remotos, uma vez que trazemos ferramentas de monitoramento para dentro de nossas casas. Porém, a inovação na área da saúde é desacelerada por causa da falta de proteção aos dados.

A falta de confiança no setor é latente. A tecnologia de rastreamento de contatos, citada acima, se mostrou uma aliada na luta contra o Covid-19, mas as pessoas estão receosas. O governo de alguns países estão exigindo esses esforços de inovação para conter o avanço da pandemia. Porém, outros dependem apenas de aplicativos do setor privado, em que os usuários podem optar por entrar ou sair. Existe uma desconfiança em permitir o rastreamento de onde e com quem estão gastando seu tempo. Devemos ressaltar que essas preocupações são legítimas, mas o tempo de resposta, em uma pandemia, faz toda a diferença. O ceticismo em relação às tecnologias de rastreamento é um dos maiores impedimentos de contenção do vírus de maneira rápida e decisiva.

O atendimento virtual e o monitoramento remoto salvarão vidas agora, mas também irão tornar os cuidados de saúde mais acessíveis a longo prazo. Assim, podemos otimizar o tempo, minimizar os dias perdidos no trabalho e economizar custos de transporte – o que é extremamente importante em mercados emergentes, com populações de baixa renda, como o Brasil. 

No entanto, essas barreiras continuarão existindo para as próximas gerações, que só mudarão o jogo e conseguirão implementar novas tecnologias, como atendimento assíncrono – o paciente e provedor não precisam se comunicar em tempo real -, se o compartilhamento e a privacidade de dados e se tornem temas importantes na agenda do poder público. Este não é um apelo a qualquer regulamentação, mas às regulamentações inteligentes – porém, as associações médicas possuem interesses arraigados, que irão procurar deixar sua marca de maneira a impedir, não permitir, um atendimento mais eficiente.

Como as health techs irão desbloquear o poder das terapias digitais? 

O mundo está cada vez mais solitário, estressado e com dores. Especialistas dizem que este fenômeno constitui uma “epidemia de saúde mental”. 

Mesmo antes da pandemia, não tínhamos terapeutas humanos o suficiente – e hoje, conforme a pandemia e a doença se alastram, a insegurança econômica aumenta e, assim, vemos nosso sistema sobrecarregado, lutando para lidar com uma explosão de pessoas ansiosas e com problemas de saúde mental.

Sabemos que a tecnologia digital, assim como as mídias sociais, podem afetar negativamente nossa saúde. Ao contrário, por que não acreditamos que isso pode moldar nossas vidas de forma positiva? 

Existem no mercado, hoje, dezenas de programas de bem-estar digital, clinicamente comprovados e escaláveis, bem como algumas terapias fornecidas por programas de software. Longe de replicar a adaptabilidade emocional de um terapeuta humano, podem ser um complemento perfeito para uma consulta de telemedicina: o médico pode se envolver com você, prescrever um programa e monitorar seu progresso a partir de um painel. 

No entanto, diferentemente da telemedicina, a terapia digital não demanda interação pessoa-pessoa em uma plataforma. Ela propõe uma nova educação de pessoa para o digital, em que irá desenvolver uma habilidades e/ou passar por um tratamento.

Em um momento em que a telemedicina se tornou um agente facilitador para a saúde pública, a capacidade da contribuição da terapia digital é deficiente. Sendo assim, até que haja uma ação legislativa que reconheça seu valor e que o reembolso para os criadores seja possível – da mesma forma que as seguradoras reembolsam por medicamentos prescritos -, o alcance a tratamentos alternativos capazes de mudar vidas é prejudicado. 

Médicos e pacientes querem tratamentos seguros e eficazes. Dessa forma, precisamos incentivar (i) as empresas a buscar soluções inovadoras ao mercado e (ii) os fornecedores a considerá-las como uma solução clínica.

Como as health techs podem gerenciar a ansiedade dos médicos sobre telemedicina?

A telemedicina já está ajudando médicos a ampliar o atendimento de qualidade. Ele remove longos períodos de espera, não comparência e tempos de viagem, e também reduz o peso dos sistemas locais sobrecarregados. Ainda assim, o futuro da telemedicina ainda é incerto e algumas pessoas não confiam na tecnologia: como podemos garantir os mesmos resultados para os pacientes? A tecnologia reduzirá minha renda ou até ameaçará minha existência como provedor? 

A apreensão não é infundada – então, o que leva a essa ansiedade? Primeiro, a expectativa de que a receita caia, já que os pacientes podem esperar um “desconto em telemedicina”. Os usuários e os provedores têm uma forte expectativa de que a estrutura de receita e custo seja diferente da tradicional, porém, temos que considerar que o resultado e bom atendimento serão os mesmos. Segundo, os médicos não sabem se a telemedicina é sua amiga ou concorrente. À medida que as ferramentas se tornam cada vez mais inteligentes e preditivas, as pessoas têm razão em perguntar se o atendimento primário será homem ou máquina.

Por fim, haverá uma perda de controle da localização e os custos de troca de turno serão reduzidos. Como paciente, posso pegar meu telefone, abrir um aplicativo e estar com um médico em questão de minutos. Assim, haverá competição, por exemplo, entre pessoas de Joanesburgo e Nova York, já que os atendimentos poderão ser em nível global. Ganha quem tiver mais qualidade de atendimento e oferecer mais resultados. 

Na pandemia, vimos a dissolução das fronteiras estaduais nos EUA, permitindo que os médicos atendam pacientes em estados fora dos seus. Essa flexibilidade é essencial em tempos como este, mas não sabemos se continuará no longo prazo. Dessa forma, a telemedicina representa uma poderosa comoditização do papel do prestador de cuidados primários hoje.

Portanto, entidades de saúde públicas e privadas e as escolas de medicina devem transformar seus currículos para ensinar médicos aspirantes a fazer diagnósticos de forma eficiente e manter empatia à distância. Além disso, devem ser adaptáveis ​​e incorporar ferramentas digitais em suas práticas. 

As plataformas de telemedicina devem aproveitar a ansiedade do momento para se posicionar como aliadas dos serviços de saúde, já que podem ajudar a obter melhores resultados para pacientes e provedores. Estamos vendo, em primeira mão, a conveniência, eficiência e valor que da telemedicina. Assim, juntos, podemos transformar o setor da saúde para que o torne vencedor. 

*Este artigo foi traduzido do medium da Endeavor Global.

**Foto: Kieran Kesner.

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