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“Mais Embraers e menos fábricas de parafusos”: A inovação que vai salvar o Brasil

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"Mais Embraers e menos fábricas de parafusos": A inovação que vai salvar o Brasil

Há uma certa acomodação para perpetuar um modelo que já mostra os desgates naturais perante uma realidade transformadora que o mundo vive.

Vivemos em um mundo em transformação acelerada e é certo que o futuro – não algo que acontecerá daqui a 500 anos, mas em 20 ou 30 – será radicalmente diferente do que vivemos hoje, como indivíduos e como sociedade. Empresas como Google e Uber já desenvolvem tecnologias de carros inteligentes que substituirão os empregos de milhões de motoristas. Empregos que hoje são de trabalho manual intensivo na indústria serão substituídos por robôs nas próximas décadas.

Futurologistas garantem que já está entre nós a primeira pessoa que viverá para sempre. Com os avanços da medicina e da indústria farmacêutica, seu filho já pode ser uma das pessoas da geração que viverá para sempre. Pode parecer ótimo, mas pense nas consequências disso para a sociedade. Como o Estado irá se preparar para suportar a Previdência (aposentadoria) de pessoas que vivem para sempre? Se a vida é eterna, ter filhos não se tornará uma urgência como é hoje – por conta da limitação da idade? Como novas pessoas (filhos) entrarão no mercado de trabalho, já que as mais “velhas” não envelhecem?

Esta nova realidade não está tão longe assim.

Pensando no desenvolvimento econômico e social dos países, fica claro que é preciso criar indústrias e serviços de maior valor agregado e menos primários, o que só acontecerá com investimento pesado em inovação, por parte do Estado e dos setores empresarial e educacional.

No Brasil, a indústria reclama da falta de infraestrutura, dos altos custos de impostos e do peso de salários e encargos nas despesas das empresas. Muitas destas reclamações são válidas, mas quando analisamos com quem nossa indústria está preocupada em concorrer, vemos que essa guerra pode estar perdida. Nas últimas duas décadas, o Brasil reduziu a desigualdade social; desde o Plano Real, o salário mínimo e o poder de compra dos trabalhadores têm evoluído sistematicamente. Os salários seguem um curso ascendente, mais próximos aos valores europeus e americanos, consequência do esforço de incluir as classes menos favorecidas.

Tal caminho não tem volta: não há como pedir à sociedade que aceite reduzir esse ganho. Assim, torna-se urgente a adaptação à nova realidade. O Brasil não é a China ou a Índia, em que a desigualdade é brutal, os salários muito baixos e os direitos dos trabalhadores praticamente inexistem. Por isso, mesmo que tivéssemos no Brasil uma infraestrutura americana e uma eficiência alemã, concorrer com a China em bens industrializados básicos seria uma tarefa quase impossível. Prova disso é que os EUA têm perdido espaço sistematicamente para a indústria produtiva da China.

Infelizmente, nossa indústria ainda patina quando precisa pivotar (como se costuma falar no universo de startups) seu núcleo de negócios para uma indústria inovadora. Com mais Embraers e menos “fábricas de parafusos”.

Se a indústria não inova, perde para os produtos chineses. Com isso, em vez de se diferenciar em termos de produtos, processos e serviços, a indústria pressiona o governo para reduzir impostos e impor barreiras aos produtos estrangeiros, o que gera uma falsa sensação de melhora, mas um encarecimento de produtos para o mercado local. A saída é buscar a inovação, utilizando as diversas leis de incentivo à inovação, do crédito subsidiado do BNDES, entre outros dispositivos, para que as empresas se preparem para um futuro disruptivo.

Há uma certa “acomodação” para perpetuar um modelo que já mostra os desgates naturais perante uma realidade transformadora. Os países que enxergaram China e Índia como concorrentes às suas indústrias primárias, décadas atrás, saíram na frente e conseguiram transformar suas indústrias e empresas locais em marcas globais. Criaram ainda um mercado de trabalho altamente qualificado, com o qual a China não consegue (ainda) concorrer.

Apoiar e fortalecer o mercado de startups em todos os estágios é essencial. Mas isso não deve vir só do governo.

Nosso setor privado precisa dar passos firmes, encarando esta nova realidade de frente. Em todos os ecossistemas de sucesso, ele tem papel essencial no desenvolvimento das startups e da inovação. O risco faz parte do processo, e isso precisa ser enfrentado sem medo, pois sem essa evolução ficaremos para trás.

Alguns desses passos podem ser, por exemplo, abraçar a ideia de que inovação não necessariamente precisa surgir dentro de casa. É comum nos EUA, e em todos os países que tem seus ecossistemas mais desenvolvidos, que as empresas apoiem e incentivem o surgimento de startups para, depois, garimpar quais podem trazer ideias disruptivas que dentro de casa raramente se consegue.

O pensamento “fora da caixa” já se demonstrou muito mais eficiente do que aquela área de inovação que as empresas têm, muitas vezes só no papel. No Brasil temos alguns eventos importantes sendo organizados para essa relação startups e empresas, como o CASE e diversos Demo Days específicos para setores do mercado (financeiro, moda etc), organizados pelas principais instituições do Setor, como a ABStartups (associação brasileira de startups), que tentam aproximar as empresas brasileiras deste mundo.

A inovação proveniente de uma startup é mais barata e rápida de ser criada, validada e posta em prática. Não é à toa que empresas como Google, Apple e Facebook, sempre que consideram oportuno, adquirem startups que desenvolvem tecnologias de ruptura. Elas entenderam que esse processo é mais eficiente e, por isso, apoiam iniciativas para fortalecer os ecossistemas de startups de onde surgirão os próximos Waze e Instagram.

Já para o governo, simplificar o processo de investimento em inovação é essencial, mas não é o único ponto. A história demonstra que os países que conseguiram criar um ecossistema inovador contaram com uma articulação inicial forte do governo e um planejamento estratégico claro que contava com o apoio do setor privado e da sociedade.

Incentivar projetos de inovação e empreendedorismo em universidades públicas e privadas é essencial para criar a cultura e o conhecimento necessário ao surgimento de visionários, além da criação de mão-de-obra qualificada e interessada nos novos mercados. Focar em capacitação básica para uma indústria primária é apertar a corda no pescoço para um fim inevitável: ficar de fora no futuro do mercado de trabalho.

As universidades brasileiras precisam abraçar a ideia de que são o elo fundamental para a inovação do país, na formação de talentos, criação de cultura empreendedora e finalmente na criação da inovação em si, até como modelo de negócios para a própria universidade. É importante lembrar que só em 2014 a universidade de Berkeley recebeu de seus ex-alunos algo em torno de US$ 3 bilhões, com B mesmo, para o seu endowment (uma espécie de fundo para investimentos na instituição).

Exemplos de ações práticas para a academia:

  1. A criação de cursos com a visão de carreiras em Y, ou seja, formando o aluno para que ele possa ser um funcionário ou um empreendedor;
  2. O investimento em pesquisa aplicada a problemáticas e necessidades reais do mercado para que gerem produtos e serviços que resolvam demandas da sociedade; e
  3. A criação de uma cultura empreendedora, em que se ensine que nesse caminho o fracasso não significa uma humilhação, mas sim um passo essencial para o sucesso.

O governo também deve criar facilidades para que o setor privado possa investir em pesquisa e inovação nas universidades, processo hoje altamente burocrático, complexo e com pouco incentivo fiscal.

Para enfrentar os desafios do nosso breve futuro, o Brasil deve começar a planejar já – governo, empresas, universidades e sociedade em conjunto. Não há apenas falta de leis ou incentivos, mas a falta de um trabalho de articulação entre as engrenagens do ecossistema. Esse processo precisa da união de todos. Por um Brasil melhor para nossos filhos.

Leia mais:
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mini curso formando times para projetos inovadores

, Dínamo, Fundador
Rodrigo Afonso, conhecido como Kiko, é um empreendedor e articulador no universo de inovação e startups. Foi um dos primeiros webmasters do Brasil no AlterNex em 1992, com larga experiência na área de tecnologia. Hoje é Coordenador de inovação e empreendedorismo da Ação da Cidadania, uma das maiores e mais respeitadas ONG’s do país.

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2 Comentários

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  1. Roberto Escobar - says:

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    Rodrigo, ótimo artigo. É importante destacar que não sobreviveremos sem a indústria de transformação. Hoje encontramos no Brasil apenas poucos programas de inovação em startups. A indústria de transformação brasileira, aquela que produz desde talheres a máquinas, trabalha com equipamentos depreciados e de baixa produtividade. Somos exportadores de matérias primas. A Tecnologia vem de fora.

  2. Régis Santana - says:

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    Ótimo texto Rodrigo. Esse ambiente de empreendedorismo e inovação vem crescendo devagar dentro das universidades. A maioria dos professores de cursos de engenharia ainda estão batendo na tecla do “mercado de trabalho”, mas também vejo alguns que já entenderam o potencial do empreendedorismo e da tecnologia juntos.

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