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Desentortando os pregos de um setor inteiro – a história da Tecverde

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Desentortando os pregos de um setor inteiro - a história da Tecverde

A história de Caio Bonatto, Beto Justus e Lucas Maceno e o sonho de revolucionar um setor com a Tecverde.

Como na música de Chico Buarque, as casas tradicionais no Brasil tinham apenas “tijolo com tijolo num desenho lógico”. Mas os estudantes de engenharia Caio Bonatto, Beto Justus e Lucas Maceno  pensavam em outro ritmo e queriam erguer “paredes mágicas”.

Com ideias inovadoras e sustentáveis, eles acabaram criando a Tecverde, pioneira na construção de casas com tecnologia wood frame no Brasil. O começo foi praticamente em uma garagem -  a sala improvisada, emprestada pelo pai de Caio, tinha apenas uma mesa de cozinha, 3 cadeiras, um computador para três pessoas, uma impressora e um scanner.

Esse era o escritório da empresa que pretendia revolucionar a construção civil, um dos setores mais conservadores do país. Ali dentro, o que fazia toda a diferença eram as mentes brilhantes de jovens empenhados em realizar um sonho grande. Mas no meio do caminho, estavam muitas noites em claro, trabalho duro, broncas homéricas de parceiros e até uma boa dose de sorte.

Reciclando pregos nas obras do pai

Filho de um empresário da construção civil, Caio Bonatto acompanhava o pai pelas obras: “meu primeiro brinquedo foi um balde e um martelo, ia catando pregos no chão e depois ficava em casa desentortando, colocando de novo no baldinho. Uma parte pregava na casa mesmo e a outra voltava pra obra”.

A vida inteira Caio quis ser engenheiro civil, mas, depois do segundo ano de faculdade, sentia verdadeira aversão ao curso. Parou tudo e foi para a Nova Zelândia. Lá, passou um ano trabalhando de barman a limpador de obras e esta foi sua única experiência profissional antes de empreender: “nunca trabalhei na construtora do meu pai, participava de reuniões, discutia projetos, ia em obra, mas nada formal”.

Na volta, retomou o curso de engenharia e teve um verdadeiro insight, que surgiu quando analisou a vivência de obra, a falta de padronização de processos, o excesso de prazos e de resíduos e a complexidade da mão de obra. Juntou tudo isso com a experiência na universidade e percebeu que poderia fazer diferente.

Caio conta que ninguém falou “vai que dá”, mas todos falaram “faça o melhor que pode dar”. Teve três grandes inspirações. A primeira foi dentro de casa:

“Meus pais trouxeram uma bagagem de valores e, quando você tem um negócio que tem uma causa, se não tiver valores, não consegue engajar ninguém”.

Seu pai também tinha métodos e conseguia realizar as coisas com planejamento. Além deles, seu avô trouxe uma noção muito forte de disciplina e de nada adianta você ter um sonho grande se não tiver comprometimento em tudo que você precisa realizar para chegar lá. Por fim, Ayrton Senna foi um ídolo desde a infância e representou uma inspiração quase espiritual. “Ele tinha uma vontade implacável de ser campeão, não só de ser bom”, diz Caio.

Inquietações compartilhadas

Incomodado com seus pensamentos e influenciado pelo contato com as formas mais sustentáveis de construir, que conheceu na Nova Zelândia, Caio passou a conversar com os amigos na Universidade Federal do Paraná, que acabaram se tornando os sócios da Tecverde.

Beto Justus estudava na mesma classe e já era amigo de surf e futebol. O pai de Beto também tinha uma construtora. Desde os 5 anos de idade, ia nas obras. Nunca foi aquela criança que pretende ser jogador de futebol, ainda pequeno já queria ser engenheiro. “Provavelmente trabalhar com meu pai e até tocar os negócios”, conta.  Mas logo no início do curso, os planos mudaram nas conversas sobre novas tecnologias, quando viram as casas construídas em outros países.

Já com Lucas Maceno, o encontro foi diferente. “Eu tinha um primo chamado Caio que eu nunca tinha visto na vida”, conta Lucas. “Saí uma noite com outro amigo meu, que também era amigo dele, e a gente começou a se falar”.

Em vez de engenheiro, quando criança, Lucas queria ser astronauta. Chegou a trocar de escolas para estudar para o ITA. Desistiu da carreira quando foi estudar no Canadá: “descobri que era muito medroso para ser astronauta”. Foi ao participar de uma palestra na empresa canadense de engenharia de tráfego e se encantou com a área que decidiu cursar engenharia civil. O convite de Caio foi motivado porque o primo era conhecido por ser muito inteligente.

Fora o trio, Pedro Moreira estudava arquitetura, entrou na sinergia e acabou se tornando um dos sócios fundadores.  Em comum, todos tinham a mesma inquietação de descobrir novos processos construtivos. Alguns anos depois, José Márcio Fernandes, ex-diretor de motores da Volvo, ingressou na sociedade e agregou a experiência de produção industrial.

Amigos, amigos, negócios também

Com todo aquele amor que tinham pela construção civil, os sócios se perguntavam por que no Brasil era tão arcaico, por que ainda estavam empilhando tijolo e desperdiçando tanto material. “A gente foi estudando e a coisa foi acontecendo, como a inovação acontece mesmo. Tudo começou com uma pergunta”, relata Beto.

No último ano de faculdade, em 2009, abriram a empresa.

Os garotos abriram mão de carreiras promissoras e continuaram empenhados em pesquisar sistemas construtivos no mundo todo. Lucas, por exemplo, deixou um estágio duas semanas depois, calculando que em aproximadamente 3 meses o negócio já daria retorno financeiro. Demorou pelo menos 3 anos. “Eu tive que pedir dinheiro emprestado, viver à base de dormir mais cedo para não precisar jantar”.

Além de emprestar a sala, o pai do Caio ofereceu uma ajuda de custo para os meninos. “Se não fosse isso, eu teria que ter desistido. Era o que me mantinha no final das contas, tive muita sorte nesse aspecto e tanto meus pais como a namorada tiveram muita compreensão”, conta Lucas, que, na ocasião, tinha apenas 21 anos de idade.

Diferente dos amigos, ele não tinha referências de empreendedorismo. Até conversar com Caio, não tinha perspectiva nenhuma de ser empreendedor. Para ele, foi importante não conhecer tanto dos perigos pelo caminho.

“A gente foi um pouco sem noção. Se fosse alguém mais calejado, talvez nem tivesse começado”.

Apesar de ser um construtor tradicional, o pai de Beto nunca fez pressão quando o filho resolveu seguir novos caminhos, a família inteira apoiou, mas o pai foi um verdadeiro espelho, com quem ele trocou mais ideias e quem acabou incentivando a ser empreendedor.

Beto comenta a reação dos professores quando falavam em tornar o setor mais sustentável e industrializado: “era visto como um bando de moleque louco. Sempre parecia que a gente estava fazendo algo que, se fosse dar certo, ou alguma empresa grande já teria feito ou uma empresa de fora já teria vindo pra cá fazer. Diziam que eram muitas variáveis para adaptar à cultura do brasileiro e desenvolver uma cadeia de insumos. Não tivemos nenhum apoio na universidade, cada um apoiava o outro e botava a mão na massa”.

Quando se formaram, todos os amigos começaram a trabalhar em grandes empresas e a ganhar altos salários. Mas o sonho grande de Beto acabou se mostrando melhor que a encomenda: “o máximo que eu pensava era em ter uma empresa do porte do meu pai, em termos de volume de obra e de padrão de vida, mas isso tudo ficou secundário e a causa passou a ser muito maior”.

Do projeto ao telhado, uma jornada de heróis

O grupo começou estudando tecnologias no mundo todo e  os processos utilizados na Nova Zelândia,  Canadá, Estados Unidos e Alemanha.  Finalmente, o que viabilizou a transferência de tecnologia para o Brasil foi uma parceria com a Federação das Indústrias do Paraná (FIEP) e o Ministério da Economia do Estado alemão de Baden-Württemberg.

Conseguir assinar esse acordo foi significativo, porque de todos que participaram do projeto, eles eram os mais jovens, nunca tinham faturado nada e eram a menor empresa. “A gente era só o CNPJ”, lembra Caio.

Na Alemanha, conseguiram mostrar que podiam ser o piloto e trabalharam duro na adequação e transferência de tecnologia à realidade, cultura e normas brasileiras. Desenvolveram um plano de negócios, de fábrica e inovaram também no processo de compra, com um sistema onde as pessoas podiam comprar a casa pelo site, escolher um modelo, personaliza-lo e sair com um orçamento pronto. Uma verdadeira revolução no mercado. Daria certo?

Uma fábrica de brinquedo?

Depois de um ano de estudos, captaram os recursos financeiros com a família e amigos para montar a fábrica. Os fornecedores contribuíram com o primeiro estoque, interessados em desenvolver o mercado interno diante da crise americana que reduziu a exportação. O que faltava para começar, eles conseguiram com um recurso de R$120 mil do Prêmio PRIME da FINEP.

Nessa época, o investimento mínimo que se falava na Alemanha para montar uma fábrica de casas era de R$ 10 a 15 milhões, mas eles conseguiram juntar apenas R$ 350 mil.

Com recursos tão escassos, eles precisaram cortar quase tudo. Veio uma única máquina da Alemanha, subsidiada pelo fornecedor apenas para demonstrar a tecnologia. No mesmo dia da inauguração, foram avisados que chegaria uma delegação alemã para fazer o treinamento da Tecverde e dar início à produção. Passaram toda a madrugada finalizando a montagem das máquinas e, ainda sem dormir, foram buscar a delegação no aeroporto.

Os alemães tinham acabado de visitar uma fábrica na Rússia. Caio lembra bem da conversa no caminho, em que diziam que “os russos são muito burros, amadores”. Mas Caio brinca que esse conceito de estupidez mudou quando entraram na fábrica deles: “o alemão viu a máquina mais cara que a gente tinha comprado e falou: ‘what is this?’. Bom, aquela era a máquina imponente, do nosso ponto de vista. E ele gritou ‘no, no, this is a toy! Isso é um brinquedo, é um lixo! Oh my God, meu filho de cinco anos brinca com uma dessas’, e esbravejava chutando o pé da máquina. Ele ficou desesperado, porque pensou que a nossa era melhor que a russa, mas a nossa era uma fábrica com equipamentos domésticos”.

Para completar a história, das vinte pessoas contratadas, só cinco apareceram, porque era o “boom” da construção civil e as oportunidades estavam pipocando. Então, sem equipe e com um alemão furioso como treinador, o que eles fizeram? Começaram a trabalhar, eles mesmos, na linha de produção – sócios, mulher, namorada, irmão… Um desafio gigantesco, que enfrentaram varando madrugadas.

Hoje, eles têm orgulho de dizer que conseguiram, com muito pouco, o que todos achavam ser impossível. Implantaram  a primeira fábrica de wood frame no Brasil e produziram  a primeira casa industrializada, não com o investimento esperado de  R$10 milhões, mas com os recursos que estavam disponíveis.

“Não é preciso você ter um cenário ideal e as condições perfeitas para superar um desafio gigantesco. Não é preciso esperar ter todo o mercado pronto, ter todos os equipamentos, todos os recursos financeiros e humanos para começar um novo projeto, para implantar uma nova empresa, desenvolver uma inovação. É possível começar com muito pouco”, conta Caio.

As regras fecham portas, mas a sorte mora ao lado

Depois de montar a fábrica e produzir a primeira casa, os sócios acharam que tudo estava resolvido, mas não conseguiam vender e descobriram que o financiamento de casas com tecnologias inovadoras era proibido no Brasil. Foi quando começaram  um trabalho vital para a sobrevivência. Bateram na porta de todos os bancos, mas não conseguiram atenção.

“Com o mercado bombando, ninguém ia parar para ouvir a conversa de uns malucos, uns piá, como a gente fala em Curitiba”, lembra Caio.

Até que um dia, em um evento na Federação das Indústrias do Paraná, a sorte bateu na porta, ou melhor, sentou na cadeira ao lado.

Caio começou uma conversa com o vizinho de auditório. Contando sobre a Tecverde e compartilhando seus desafios, ao final do papo, descobriu e ele era o diretor de sustentabilidade do Banco Santander, que foi praticamente coagido a marcar uma reunião na sede do banco em São Paulo.

Na visita, a conversa com os vice-presidentes e diretores do banco, que deveria durar 5 minutos, demorou horas. O Santander comprou a briga. Conseguiram quebrar a regulamentação que proibia o financiamento e este  foi um divisor de águas. Depois disso, começaram a vender as casas com mais facilidade, conseguiram a homologação da tecnologia para baixa renda e ganharam escala quando entraram no Programa Minha Casa Minha Vida.

Cada momento, um novo desafio

Além de implantar um processo inovador num mercado tradicional e vencer as barreiras do financiamento, havia ainda o desafio de montar uma empresa sem conhecer nada de gestão.

No começo, eles fizeram de tudo. Cada um passou por todas as áreas para desenvolver os setores comercial, administrativo e financeiro e fazer contatos com clientes e fornecedores. Aprenderam errando e, quando mal haviam começado a pensar em governança, se tornaram os mais novos Empreendedores Endeavor aprovados na época. Com a orientação de mentores, formaram um Conselho e o suporte inicial supriu a inexperiência em gestão.

Mas o segredo, eles revelam, foi focar em gente e, desde o início, trazer pessoas que compartilhavam dos mesmos princípios que eles. Podia faltar experiência, mas tiveram o mérito de reconhecer que não tinham todas as competências e investiram em uma equipe complementar, de engenheiros, arquitetos e profissionais da indústria automobilística. Caio ressalta que “o equilíbrio é importante para ter um processo mais aberto à inovação, com pessoas idealistas e sonhadoras e pessoas que são referência nas suas áreas”.

Beto diz ainda que a certeza de estar no caminho certo veio quando começaram as entregas e perceberam que estavam, de fato, levando algo melhor para a população. O impacto aumentou ainda mais quando deixaram de vender casas isoladas no modelo  B2C e passaram para as vendas B2B, com  obras em escala e um mínimo de padronização.

Mas mudar o modelo de negócios tem seus imprevistos e Lucas lembra o susto inesperado, quando concentraram  o faturamento em poucos clientes e um deles atrasou três meses: “o cara falou ‘hoje eu pago vocês’. Tínhamos a folha dos funcionários para pagar e, depois de 3 dias, não havíamos recebido ainda. Parece pouco tempo, mas dependíamos desse dinheiro”. Mesmo com tudo planejado, eles assumiram compromissos que não cumpriram e isso foi muito forte para o aprendizado empreendedor. No final das contas o cliente pagou, conseguiram colocar as contas em dia e ficou a lição.

“Diariamente você tem essas pancadas, às vezes acontece uma dessas e você tem que ter resiliência. Você vai ganhando a casca de empreendedor”, conta Lucas.

Planos arrojados para o futuro da Tecverde

Enfim, 2014 foi um ano que faria aquele treinador alemão orgulhoso. Implantaram uma fábrica com padrões altíssimos em Curitiba, a mais automatizada da América Latina, com capacidade para produzir três mil casas ano. Lucas, responsável pelas montagens e pela área operacional da empresa, se orgulha das vitórias: “Me deixa muito satisfeito o que a gente vai conquistando com solidez, como passar de  uma planta inicial com 300 m² para a atual com 10.000 m²”.

No final de 2015, a Tecverde recebeu um aporte de R$ 20 milhões de um fundo americano, que permitiu  potencializar ainda mais seu crescimento. Hoje, já foram mais de 85.000 m² construídos que deixaram de gerar 8.500 toneladas de CO2 e 14.000 toneladas de resíduos. A meta esse ano é dobrar a capacidade da fábrica e o faturamento e, em 2017, a expectativa é dobrar de novo – o que valida o sonho inicial e compensa toda a luta para tornar o setor muito mais evoluído.

Olhando para trás, impressiona o que três “piá” e mais algumas dezenas de pessoas fizeram em tão pouco tempo. Mas Lucas não nega a sorte que foi eles terem se encontrado para embarcar nessa aventura juntos. “Minha maior admiração eram meus próprios sócios, eu via o que eles iam fazendo e me inspirava a fazer mais ainda, via as coisas acontecerem e pensava ‘com esses caras aqui, vai dar certo’. Até hoje é assim”.

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