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Cristiano Brega: “é inútil separar a pessoa do empreendedor”

Cristiano Brega
Cristiano Brega

Empreendedor Endavor e CEO da Confiance Medical Produtos Médicos S/A.

Tentei várias vezes começar este artigo. Nunca consegui. Mas hoje, depois de participar de um bate papo na Endeavor junto com o meu Conselheiro e amigo Bernardo Lustosa, CEO da Clearsale, e a Mafê Musa, resolvi tirar as palavras da cabeça e do meu coração.

Por um bom tempo eu pensei que o que queria escrever não tinha relação com empreendedorismo. Porém, hoje o Bernardo falou: “nunca tente separar a pessoa do empreendedor. É uma coisa só. Tentar separar é inútil e em vão.”

Pois bem, aqui estou. 

Tudo começou quando eu encontrei o Dr. Luiz Flávio – um ginecologista mineiro que trabalha em São Paulo, que, além de ótimo médico, é também um ser humano incrível. 

Nesse dia, conversamos sobre o meu irmão – que na época estava entubado com Covid-19. Desabafei sobre como deveria ter sido entubado sabendo que ele poderia não voltar mais. 

Isso estava mexendo muito com a minha cabeça.

O Luiz me contou a história de quando seu pai foi diagnosticado com um tipo raro de câncer. Ao descobrir sua condição, o pai dele reagiu muito bem e disse: “Fiquem em paz pois eu também estou. Farei o que tiver que fazer, mas estou tranquilo por tudo o que fiz na vida”. Ele viveu mais dois anos e, quando se foi, estava com o mesmo pensamento e a tranquilidade de sempre.

Voltei pra casa com essa história na cabeça. O que eu deveria fazer para ter essa tranquilidade no dia D? 

Sabia que deveria tirar isso da minha cabeça. Mas já me contrariava de novo: como não pensar na única certeza que tenho nessa vida – a morte?

Enfim, eu estava bem “atrapaiado”. 

A verdade é que essa pandemia fez a gente pensar e repensar muitas coisas que antes eram deixadas de lado. Agora, são prioridade. 

E vice-versa.

Prioridades

Para mim, esses tempos só reforçaram algumas coisas que, por sorte, eu já acreditava e estava mudando nos últimos dois ou três anos. 

Em 2015, escrevi um artigo sobre a dúvida em priorizar a empresa ou a minha família. Na época, decidi que deveria ser a minha família. 

Porém, com o tempo, percebi que a prioridade deveria ser eu, a minha família e depois a empresa – com a possibilidade de priorizar a empresa por algum tempo e família em terceiro lugar. Mas sempre eu como prioridade.

Apesar de parecer um pensamento egoísta, é a coisa mais lógica do mundo: se a gente não estiver bem, nunca vamos conseguir cuidar da família e do trabalho. É como diria O Ultraje a Rigor:

“Eu que queria tanto ter alguém… 

Agora eu sei sem mim eu não sou ninguém…

Longe de mim nada mais faz sentido… 

Pra toda vida eu quero estar comigo… 

Eu me amo, eu me amo...

Não posso mais viver sem mim.”

É o que o Bernardo disse: “não tente separar as coisas”. 

O combo

Quando decidi que deveria me priorizar, a primeira coisa que mudei foi o hábito de fazer atividades físicas. Eu tive a sorte de começar antes da pandemia. Tudo começou por causa de uma bronca que tomei do meu amigo Anderson Thees – contei que estava com problema no ombro e não tinha tempo de ir no fisioterapeuta. Depois, fizemos uma aposta de quem emagreceria mais. Eu ganhei a aposta – e muito mais saúde.

Também comecei a meditar por incentivo da minha amiga Kelly. Em uma viagem que fizemos em abril de 2019, lembro da mãe dela, Dona Elizabeth, falando: “respirar já é uma meditação”. No começo foi muito difícil. Eu fechava o olho e minha cabeça pensava em mil coisas ao mesmo tempo. Ficar parado era um sacrifício – ainda mais pra mim, que sempre fui tranquilo como um filhote de labrador. 

Nunca vou me esquecer do dia que consegui esvaziar completamente a cabeça e ficar por um tempo sem pensar em nada. Aquela máxima “cabeça vazia, oficina do Diabo” caiu por terra. Comemorei a cabeça vazia.

E foi justamente esse combo – atividade física, meditação e fé (que eu sempre tive graças a minha mãe) – que me ajudou a enfrentar o maior desafio pessoal e empresarial da minha vida: a pandemia. 

A atividade física me dava força e energia. A medição me trazia para o presente. A fé me preparava para o futuro. Mas faltava um pilar nesse combo. O que fazia tudo ter sentido: as pessoas.

Pessoas

Hoje a Mafê perguntou o que me movia. Resposta fácil: pessoas. Primeiro, a minha família. Principalmente a Luísa, a Sarah, meu pai, mãe e irmãos. Logo depois, os Confiantes. 

Eu plagiei uma frase que virou um grande lema na minha vida: se quiser ser feliz, não empreenda. Mas se quiser fazer muita gente feliz, empreenda e tenha um propósito que motive as pessoas. 

É isso que me move: minha família e os Confiantes compartilhando o sonho que começou comigo, com o Guarany e o Fernando, meus sócios.

Como empreendedor, sei da minha responsabilidade em ser um exemplo. E uma das responsabilidades de uma liderança é assumir a vulnerabilidade e ser transparente para conquistar a confiança das pessoas. 

Reputação 

E essas responsabilidades são cruciais para desenvolver a reputação. Depois de um 2020 turbulento, posso dizer com muita propriedade que, nos momentos de dificuldade, a reputação faz toda diferença para continuar a jornada. 

É com ela que você garante que as pessoas do seu time e seus clientes subam no seu barco. 

A pandemia veio para mostrar que nem sempre a gente tem o controle do barco – e em algumas situações o mar vai dar uma guinada absurda. Nessa hora, se a tripulação não tiver uma confiança prévia no comandante, tudo vai por água abaixo. 

E mesmo assim, seja em águas mansas ou turbulentas, a vida surpreende. Uma pandemia acontece. Uma tempestade cai em dias de sol. Por isso, eu me lembro todos os dias de que eu tenho que fazer o meu máximo. 

O sonho grande

A Mafê também fez uma pergunta que eu nunca tinha parado para pensar: qual é o seu sonho grande na vida pessoal?

Respondi mais ou menos o seguinte: 

“No dia de partir, eu quero olhar para a Luisa, minha filha, e ver que consegui deixar os mesmos valores que os meus pais deixaram para mim. Quero dizer que ela é do bem e vai deixar um legado no mundo da maneira dela. Quero que os meus familiares e amigos digam pra ela: seu pai foi um grande cara.”

Só que agora, colocando as ideias deste artigo no papel, eu tenho mais uma coisa a acrescentar nesse sonho grande: quero poder olhar para o meu passado e dizer que eu fiz o meu melhor e fui a melhor pessoa que eu poderia ter sido. E, para isso, eu preciso ser o melhor pai, marido, filho, irmão, amigo e líder. 

Não é uma tarefa fácil. 

A responsabilidade é grande. 

Precisa de equilíbrio. A verdade é que equilibrar é mais difícil que apoiar um dos lados, e é isso que torna a nossa jornada tão desafiadora.

Tentar de novo

A Confiance é uma empresa que vende equipamentos para saúde. E, apesar de não vender nada relacionado ao Covid-19, entregamos nossos principais KPIs: meta de faturamento, NPS e e-NPS. Pra mim, a maior conquista foi não perder nenhum Confiante – isso era o que mais tirava o meu sono. 

A minha empresa se manteve firme. Mas eu não. No dia 29 de maio de 2021, perdi o meu querido irmão Alexandre, que partiu aos 51 anos, depois de lutar bravamente por 32 dias contra a Covid-19. 

Encontrei com ele a última vez na casa do meu pai, uma semana antes dele ser internado. Foi um encontro comum: muito divertido, rimos bastante relembrando histórias do tempo de adolescente. 

Me despedi dele pensando que a gente precisava se encontrar mais. Mal sabia que seria o nosso último encontro.

Depois disso, a história do pai do Dr. Luiz fez muito sentido. 

Para ir embora tranquilo, entendi que eu precisava fazer a minha parte – tanto para a minha vida pessoal, quanto empreendedora. É como diz a música da Legião Urbana:

Todos os dias quando acordo

Não tenho mais

O tempo que passou

Mas tenho muito tempo

Temos todo o tempo do mundo...”

O passado não volta. O importante é aprender com os erros e acertos, porque temos todo tempo do mundo para, no dia D, poder dizer: “estou tranquilo por tudo que fiz na vida”.