Conheça a Kiper: a primeira scale-up de portaria remota do Brasil

Fabio Beal
Fabio Beal

Fabio Beal é fundador da Kiper, a primeira scale-up de portaria remota do Brasil e Empreendedor Endeavor desde 2019.

Fabio Beal aprendeu a empreender do melhor jeito: na prática. Foram 18 empresas em 18 anos. Dessa experiência, nasceu a Kiper, o Hardware as a Service de portaria remota do Brasil. Nesse artigo ele conta a história que o trouxe até o palco do Jantar de Resultados da Endeavor, como o mais novo Empreendedor Endeavor selecionado.

Toda história é feita de uma matéria única: a combinação de ingredientes que tornam aquele empreendedor ou empreendedora capazes de, diante de todas as incertezas, prosperar. A minha é um misto de sonho e persistência. Porque sonho sem persistência não te tira do lugar. Mas persistência sem sonho também não te leva muito longe.

Essa combinação única me levou à Turquia, na última etapa de seleção para me tornar Empreendedor Endeavor. À frente da Kiper, realizei um sonho. Um sonho que, aos 17 anos, eu nem imaginava existir.

Como tudo começou

Aos 17 anos, eu só tinha uma certeza: eu seria tudo na vida, menos vendedor.

E olha que comecei cedo. Aos 11, ainda na quinta série, quando eu tirei minha primeira nota vermelha, meu pai me mandou arranjar um emprego. Comecei a trabalhar de graça, como Office Boy em Dois Vizinhos, no Paraná. Não parei mais. Aos 14, já tinha carteira assinada. Trabalhava como assistente administrativo e datilógrafo, mas sonhava em fazer Engenharia Elétrica. Descobri, então, um curso técnico em Pato Branco e me inscrevi.

Aos 14, minha rotina era essa: estudava na escola de manhã, trabalhava a tarde e percorria 60 km de ônibus até Pato Branco para estudar à noite.

Fusca 73

A vida foi me ensinando a me virar. Aos 17, eu queria aprender a dirigir. Meu pai tinha um Fusca velho e pensei que podia aprender com ele.

Lembro até hoje do que ele me respondeu durante o almoço:

— Ué, pra quê você quer dirigir se não tem carro?

Saí da mesa furioso e fui trabalhar. Na época, eu cuidava da informática de uma concessionária, ganhava R$ 330,00 por mês. Naquele dia, uma cliente tinha acabado de entregar o seu Fusca. Fui conversar com meu chefe e parcelei o Fusca em 8 vezes de R$ 240,00. O que sobrava do salário ia para a passagem de ônibus para Pato Branco.

Voltei aos trancos e barrancos, raspando nas valetas, deixando o carro morrer várias vezes, mas cheguei buzinando com o Fusca. Aprendi a dirigir no caminho. Meu pai me olhou na porta e entrou em casa. Nunca mais falamos no assunto.

Do Passat 87 à Honda BIS

Aos 19 anos, eu tive uma crise. Eu não suportava mais a pressão no trabalho, era uma liderança totalmente divergente dos valores que eu tinha. Para piorar, meu pai tinha saído de casa depois de se separar. Eu precisei cuidar da minha irmã mais nova, enquanto minha mãe se virava vendendo roupas em feiras pelas praias do Brasil.

Um dia, pedi as contas. Peguei meu Passat e passei 45 dias ajudando minha mãe nas feiras. Até que um amigo meu me ligou oferecendo um emprego. O dinheiro que eu tinha deu para comprar uma calça, uma camisa e colocar combustível no Passat.

Eu fui.

Cheguei lá, jurando que era para trabalhar com informática. Mas era uma vaga de vendedor.

— Mas não tem nenhuma outra vaga aqui? Eu trabalho pela metade do salário se precisar.

— Não tem, Beal. Só de vendedor.

— Faço qualquer coisa, eu juro. Menos ser vendedor.

Era a oportunidade de me reinventar. Aceitei o emprego.

Contra todas as probabilidades, me descobri vendedor. Comecei o primeiro mês ganhando R$ 1.000,00, 3x mais que meu último trabalho. Ao longo dos meses, eles foram abaixando a porcentagem da minha comissão de tanto que eu vendia.

Aos 21, a vida estava boa. Eu trabalhava nesse provedor de internet, vendia bem e uma vez por mês ia para Joaçaba fazer faculdade — a primeira de Empreendedorismo do Brasil. Até que um dia, a empresa foi vendida. Cheguei na reunião e descobri que os novos donos eram os mesmos do meu antigo emprego. Pedi as contas no mesmo dia.

Decidi abrir minha primeira empresa.

Fiorino 97

Chamei um amigo para ser sócio e nós montamos juntos um negócio de instalação de alarmes. Ele era o técnico, eu era o vendedor. A placa da frente da loja foi parcelada em 12x. Apesar de tudo, começamos.

Dois meses de empresa e meu sócio me conta:

— Beal, recebi uma proposta de emprego.

Era muito dinheiro. Mas muito mesmo.

Eu só dei um abraço nele e disse: Vai!

Detalhe: eu não sabia nem pegar na chave de fenda. Uma instalação que levava um dia, levei uma semana para fazer. Ficava no telefone com o fornecedor, tentava, parava uma meia hora para chorar, voltava e tentava de novo. Mesmo com todo esse esforço, eu tinha que escolher se almoçava ou jantava.

Um mês pagava a faculdade, no outro o aluguel.

Nesse meio tempo, uma franquia de monitoramento de alarmes me chamou para conversar. Apesar de ser pequeno, eu incomodava nas vendas. Eles já tinham 12 franquias, e precisavam de ajuda para reestruturar uma em Quedas do Iguaçu, a 150 km de Francisco Beltrão. Cheguei lá com a minha Fiorino Furgão e negociei a participação: deixei a Fiorino com eles por um pedaço do negócio, basicamente tudo o que eu tinha, e ainda fiquei devendo R$ 6 mil com a promessa de pagar ao longo dos meses.

Pedi emprestado a Honda BIS da minha namorada, que hoje é minha esposa, e ia de moto pelas estradas toda semana para Quedas. Aos poucos, a franquia foi virando e nós conseguimos usar o dinheiro para abrir outras duas. Mas ainda não era algo tão sólido: os negócios pagavam as contas, mas não sobrava quase nada.

No final de 2004, a franqueadora me ligou: eles tinham uma unidade que precisava ser reestruturada. Só que era em Sorriso, no Mato Grosso. Mais de 2.000 km da minha cidade. Eu fui.

‘O cara’ dos alarmes

Em cinco anos, conseguimos transformar aquela unidade quase quebrada em uma das cinco melhores da rede, chegamos até a comprar a concorrência. Eu me achava o cara dos alarmes. Até que o desafio ficou maior. Me ligaram de novo:

— Beal, a gente tem uma outra unidade para você cuidar. Lá em Cuiabá.

Eu tinha 29 anos, não queria me acomodar. Ao lado da minha esposa, nos mudamos.

Ali eu tomei consciência da realidade. Era minha primeira vez morando em uma cidade grande. Uma cidade que chegou a ser a 19ª mais violenta do mundo. Meu trabalho de monitoramento e segurança era ineficiente. O crime era muito desenvolvido por lá. Passei a sofrer junto com meus clientes.

Eu precisava buscar outra coisa.

Segurança remota

Isso era 2009, quando o Brasil vivia um boom imobiliário. Os condomínios começaram a nos contratar para fazer a segurança dos prédios. O problema é que os porteiros não seguiam os protocolos de segurança.

Pensei em montar uma empresa de portaria humana tradicional. Cheguei a conhecer uma das maiores de Cuiabá. E descobri que eles já faziam tudo o que eu sonhava em fazer — treinamento, acompanhamento psicológico — mas nada disso adiantava porque existia um problema cultural muito maior relacionado ao perfil dos profissionais. Além disso, a função da portaria chega a ser desumana. O funcionário está cercado por uma guarita com a única função de permitir ou não a entrada de pessoas no prédio.

Foi aí que me veio a ideia: vou criar uma portaria remota. Juntei um monte de equipamento: câmeras, controles de acesso, automatizador de portão, plaquinha eletrônica caseira…Montei uma maleta com tudo aquilo para demonstração. Precisava apenas do primeiro condomínio que aceitasse testar o projeto. Nem sabia na época, mas aquele era meu MVP.

Decidi testar em casa. O condomínio onde eu morava não tinha porteiro e poderia fazer o piloto. Mas não foi aprovado na Assembleia, apesar de ser oferecido de graça. Alguns meses depois, o condomínio vizinho foi roubado — aí me chamaram pra conversar. Este foi nosso primeiro cliente com 33 casas.

O projeto funcionou. Fiquei 30 dias sem dormir. Como expandir?

Bati na porta da franqueadora com a qual eu trabalhava, apresentei o projeto, mas a resposta foi não. Tive que me virar sozinho. Entrei em contato com o Juliano Bortolotti, amigo meu de Sorriso, e com o Alessandro de Carli, que tinha sido meu funcionário também em Sorriso, para assumir o desenvolvimento técnico do produto, e os dois foram os primeiros a topar.

Vendi o terreno que tinha comprado para construir minha casa, refinanciei a caminhonete, pedi dinheiro no banco…E com isso conseguimos vender nossa primeira franquia criando a Porter, nossa franqueadora de portaria remota. Depois disso, dois outros sócios entraram como investidores-anjo, acreditando no projeto: o Clomir e o Minoru.

Em determinado momento, percebemos que a tecnologia de portaria remota poderia existir para além da franqueadora. Assim nasceu a Kiper.

o modelo ajuda os condomínios a economizarem, em média, R$ 100 mil, metade dos custos fixos da portaria tradicional

Na prática, nós vendemos um Hardware as a Service, uma tecnologia que integra hardware, software e serviços para oferecer uma solução completa de acesso a condomínios por meio de portaria remota. Nesse modelo, conseguimos reduzir pela metade os custos fixos do condomínios aumentando em 35x a segurança dos moradores.

Logo no primeiro ano, em 2014, faturamos R$ 1,4 milhão. Mas ali em Cuiabá a empresa não iria escalar. Foi aí que decidimos nos mudar para uma cidade com ecossistema de tecnologia mais maduro. Em dezembro daquele ano, estávamos desembarcando em Floripa.

Fundo, MVP, startup e outras palavras que aprendi

Eu não sabia ainda, mas meu mundo estava prestes a desabar. Até então, quando falavam de fundo, eu só sabia do fundo do meu bolso. E esse eu conhecia bem. Não sabia o que era escalar, captar investimento, fazer um MVP…Passei uns três meses completamente perdido tentando entender em que momento minha vida virou de cabeça para baixo.

Decidi esquecer tudo o que eu achava que sabia e recomeçar.

Ali eu comecei a ver o mundo. E foi nesse momento que a Endeavor apareceu. Um dos novos sócios da Kiper, o Luiz Henrique Bonatti, já conhecia o escritório em Florianópolis e me apresentou à Endeavor.

Era como se eu morresse de sede e ela viesse com um copo enorme de água gelada. Fui em uma mentoria do Scale-Up Endeavor de Santa Catarina e não parei mais. A Porter foi acelerada em 2016, a Kiper em 2017 e já no fim do ano começamos o processo seletivo para que eu me tornasse Empreendedor Endeavor.

A cada mentoria, eu aprendia 10 coisas diferentes. Aprendi o que é governança, consegui resolver nossa questão societária, fui apresentado para diversos fundos, mas para além de tudo isso, entendi que a Kiper podia ser muito maior.

Lá em Istambul, no Painel Internacional de Seleção, eu só ouvi duas coisas: Big and Fast.

Meu objetivo é passar de mil para 10 mil condomínios atendidos pelo país. Mas o que eu imaginava construir em 10 anos, os mentores me provocaram a fazer em 3.

Cada vez mais entendo que a missão da Kiper é tornar a vida dos moradores de condomínios mais feliz. Para isso, o caminho é sermos mais do que um sistema de portaria remota. Nossa visão é ser uma plataforma que atenderá a todas as necessidades dos moradores, a partir de um modelo de Economia Compartilhada.

As compras online, por exemplo, podem ser guardadas pelo entregador, via QR Code. A porta do apartamento pode ser aberta à distância. A visita pode chegar pelo Waze com autorização automática. E tudo o que imaginamos ser impossível hoje, pode ser parte da rotina de quem compartilha o mesmo endereço.

Passado o Painel Internacional, fui apresentado à rede no Jantar de Resultados da Endeavor. Mesmo ali, em cima do palco, minha ficha não caiu. Ser Empreendedor Endeavor é a maior realização que eu poderia ter. É também a certeza de que minha jornada como empreendedor vai além da própria Kiper. Ela se perpetua como exemplo para todos os empreendedores que estão nascendo neste momento, a partir do que eu ainda quero construir.

O time da Kiper é formado por mais de 40 pessoas e já conquistou o selo Great Place to Work.

E olha que tem muito a ser construído!

Para tudo isso se concretizar, lembro sempre dos dois elementos que constituem a minha história. Sonho para sempre expandir os horizontes do que sou capaz de realizar. E muita persistência que faça da execução nossa ferramenta de construção da realidade.