Day1 | Marcos Arruda: “Não diminua seus sonhos para caberem nos seus medos”

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Marcos Arruda

Dê o play e assista ao Day1 de Marcos Arruda, fundador da Moneto.

Nasci em Vitória da Conquista, no interior da Bahia. Vim de uma família que não tinha muito esse negócio de sonhar. Todo mundo vivia no automático, sem pensar muito nas coisas.

Meu pai era caminhoneiro, ficava mais fora de casa do que dentro. Minha mãe, enquanto cuidava de mim e do meu irmão, trabalhava comprando e vendendo coisas num ferro velho no nosso quintal. Meu irmão passava a maior parte do tempo vendo TV.

Não importava muito se a gente ia bem na escola, se perdia o ano, o importante era continuar.

Eu chamo de teoria da apneia: respira e vai.

O que me salvava era o ferro velho. Um bocado de coisas diferentes chegando todo dia, que eu podia explorar e usar para montar meus próprios brinquedos

Mas quando eu estava entrando na adolescência, com uns 11 anos, criar meus próprios brinquedos no ferro velho começou a não ser suficiente. Eu queria alguma coisa a mais, só não sabia o quê. Falei com minha mãe e ela me pôs no inglês. Eu gostei, achava bonito aquele jeito diferente de falar as coisas. Mas dois meses depois meu pai veio me perguntar: “Por que você tá fazendo inglês? Eu não falo inglês, sua mãe também não, meu patrão que me dá trabalho também não…o que você vai fazer com isso?” Eu não sabia responder. Saí do inglês.

Mas aquele incômodo foi crescendo em mim. A minha família tinha se acostumado com um teto. Todo mundo que eu conhecia ali seguia mais ou menos o mesmo caminho e eu não precisava de bola de cristal para prever meu destino: terminar a escola, casar, trabalhar em uma loja de sapatos ou vendendo autopeças. A carreira máxima era ser representante de autopeças. Eu não concordava com aquele teto, mas não fazia ideia de como furar isso.

Esquadrilha

Com 16 anos, quando eu estava no auge dessa confusão mental, sem saber o que queria na vida, a Esquadrilha da Fumaça apareceu na minha cidade. Eu fiquei impressionado com aqueles aviões fazendo manobras no céu, era incrível. E aí quando terminou a apresentação, um dos pilotos veio perto de onde eu estava. Era o tenente Todesco. Eu não tirava os olhos dele, ficava observando aquele uniforme, o jeito de andar… era uma coisa de outro mundo. Quando ele percebeu, veio falar comigo: “E aí menino, quer ser piloto também?” Eu ri.

Ele perguntou: “Sabe qual é a diferença entre você e eu? É estudar, fazer a prova e entrar.”

A simplicidade com que ele falou isso me pegou de jeito. Três ações: estudar, fazer a prova, entrar. Eu poderia fazer isso e alguém de fora acreditava em mim.

Essa conversa foi um Day1. Eu entendi que podia ir além do teto da minha família.

No ano seguinte, eu fui com a minha mãe morar 4 meses em São Paulo. Ela estava com um problema no coração e precisava fazer um tratamento, eu fui o escolhido para acompanhar. E então eu descobri que São Paulo não era um monstro tão grande assim. Eu pegava o trem, andava por vários lugares, bem mais fácil do que eu imaginava. Então tudo que para mim era muito difícil eu comecei a ver de outra forma: comecei a encarar.

Matemática, física e química

Quando voltamos, eu já tinha perdido um bimestre das aulas do segundo ano. Seria difícil recuperar. Essa dificuldade, mais a vontade de ser piloto e o desafio de todo mundo falar que era impossível, me fizeram mudar totalmente a atitude nos estudos. Eu escolhi as três matérias mais difíceis e comecei a estudar — matemática, física e química.

E quanto mais eu estudava, mais tirava notas altas. Nove, dez. Ninguém tirava essas notas nessas matérias. Fui entendendo que só dependia de mim.

AFA

Quando eu passei na prova da Academia da Força Aérea, fui contar para meus pais. Meu pai falou “Vai ser piloto? Legal. Agora deixa eu ir que preciso abastecer o caminhão.” Minha mãe nem entendia bem o que eu falava, a única preocupação dela era “Quando começa?” — porque eu podia precisar de uma blusa, uma meia…

Esse jeito prático da minha mãe, de pensar sempre no próximo passo, sem sofrer muito com o processo, me ajudou muito nos primeiros 40 dias da Academia. Tem uma quarentena do terror onde todo mundo chega no limite físico e emocional. Dos 270 que entraram na minha turma, 90 saíram nos primeiros 40 dias. Eu não pensava na fome que eu sentia, na dor, só pensava uma coisa: quando é que vai acabar e eu vou entrar no avião? Queria só saber o próximo passo.

Eu estava focado no meu sonho de ser piloto da Esquadrilha da Fumaça, me dediquei de corpo e alma e virei uma referência para minha turma. No segundo ano, eu era líder da minha esquadrilha, líder do esquadrão e membro do Conselho de Honra.

Até que um dia me chamaram no comando e me deram uma notícia que fez meu mundo desabar. Durante um voo, eu tive um problema no rádio e entendi errado o sinal luminoso que eles me mandaram — descobri que sou daltônico.

Quando você é daltônico, não pode ser piloto. Ponto

Eu recebi um laudo médico falando que estava “definitivamente inapto a atividade aérea”.

Eu estava bem próximo do meu sonho e ele foi subtraído, por motivos que não dependiam só de mim. Voltei para a casa dos meus pais na Bahia.

ITA

Cheguei em casa frustrado. Todo mundo achava que eu voltava porque tinha errado feio. Aí pensei: “qual é o lugar onde eu consigo estudar, comer e morar de graça?” O ITA.

E aí eu fui para a guerra. Eu tinha 6 meses para estudar antes da prova. Se não entrasse teria que arrumar um emprego. Estudava 10 horas por dia, o tempo todo. Ia tirando os livros de uma pilha para outra. Contei quantas páginas tinha para estudar e fiz minhas metas do mês e da semana.

No fim do ano, fiz a prova e entrei. Como sempre, não teve muita comemoração em casa, todo mundo no automático. Minha mãe queria só saber quando eu ia. Meu pai perguntou: “Vai para São José dos Campos? Você tem dinheiro para a passagem?” Eu falei que não. Então ele me deu 150 reais. Eu comprei a passagem e sobraram 70 reais.

Esses 70 reais eram o dinheiro que eu tinha para passar os próximos 5 anos na faculdade

Como eu tinha entrado no ITA mais para estudar, comer e dormir de graça do que para me formar Engenheiro, diferente da AFA, eu não tinha muita certeza do que eu queria fazer. Fui explorando até parar na empresa júnior. Ali as pessoas criavam projetos de vários tipos e eu logo me identifiquei.

Investcampus

Um dos projetos era um simulador de investimentos na Bolsa de Valores. Eu achava que essa ideia tinha que se expandir para todas as faculdades e me juntei com dois colegas para levar o projeto para fora da empresa júnior.

Desenvolvemos um sistema muito bom, com dados reais da Bovespa, que em pouco tempo tinha uma base de 20 mil alunos universitários usando.

Resultado: fomos crescendo a plataforma até que um grande grupo financeiro se interessou e quis comprar. Vendemos.

Eu tinha 26 anos de idade e fiz uma venda de 1 milhão de dólares.

Crise

Com esse dinheiro que eu ganhei, poderia ajudar minha família toda. Minha mãe e meu pai poderiam ficar mais tranquilos e meu pai poderia parar de viajar. A rotina dele era puxada. Ficava um tempão na estrada e, quando voltava, guardava o caminhão a uns 9 quilômetros de casa e vinha andando. Ele dizia que estava ficando cada dia mais perigoso, gente maldosa na rua. Ia gostar de não ter mais que viajar.

Na semana em que ele falou que faria a última viagem, eu preparei uma surpresa. Comprei um carro para ele, um Audi A3. Meu pai faria a última viagem na sexta e na segunda eu ia aparecer com o carro.

Nessa mesma sexta, o medo dele se concretizou: ele foi abordado por três bandidos pedindo o dinheiro dele e, como ele só tinha um real, tomou três tiros. Morreu no hospital.

Eu fiquei muito abalado. Pensava: sonhar não adianta nada porque podem tirar o sonho de você. Sentia ali a mesma sensação de quando fui desligado da FAB: não tinha o que eu fazer, não dependia mais de mim.

Boldcron e UOL

Mas o tempo foi passando e eu lá no fundo tinha ainda uma energia guardada. Quem me ajudou a canalizar essa energia foi um amigo Sergio Kulikovsky, que me deu muito apoio quando meu pai morreu e virou meu sócio em um negócio novo de soluções para negócios na internet: a Boldcron. Me senti ali na mesma situação de quando um Piloto da FAB acreditava mais em mim que eu mesmo.

Foi nessa empresa que eu foquei toda minha energia. Trabalhava 10 horas por dia. Queria fazer o PayPal brasileiro. Ninguém acreditava muito nisso, me falavam que quando o PayPal chegasse ele ia nos esmagar. Tentei vários investidores e era sempre a mesma reação.

Mas nós crescíamos e o negócio foi ganhando importância no mercado. Até que um dia eu fui fazer uma reunião no UOL para pedir investimento, mostrando para eles meu plano de ter o PayPal brasileiro e saí de lá com uma proposta de compra da empresa. Descobri que esse era também o plano deles e que a solução tecnológica da Boldcron estava sendo usada como motor do Pag Seguro que eles estavam desenvolvendo.

Então em 2009 eu vendi a empresa para o UOL, por 12 milhões de reais.

Fazia parte do acordo um período de não competição de 4 anos e nesse período eu trabalhei como executivo do UOL para ajudá-los a por de pé o projeto. Mas foi um choque muito grande, é difícil quando você tem cabeça de startup trabalhar dentro de uma empresa grande tradicional. Tem muita gente que é só ar condicionado e café, que não está muito preocupado em criar valor e coisas novas.

Assim que acabou meu contrato, em 2012, eu saí do UOL e comecei a buscar novos projetos.

Moneto

Atuei tanto como empreendedor e como investidor, sempre ao redor dessa área de soluções financeiras na internet.

Nessa época, eu estava num segundo casamento que me fortalecia. Tinha passado por alguns anos de terapia que me ajudaram bastante a lidar com o dinheiro e com o mundo novamente, após a morte do meu pai. E então consegui sair de vez do automático que eu tinha entrado e voltei a sonhar alto: decidi fazer um banco digital.

Esses brasileiros, que estão à margem do sistema financeiro, movimentam 600 bilhões de reais por ano na economia.

Todo mundo ao meu redor dizia como era difícil, que tinha a regulação do Banco Central, uma série de dificuldades… nada me desanimou. Eu só pensava que queria oferecer serviços financeiros sob medida para autônomos desbancarizados ou sub-bancarizados — como meu pai, minha mãe e outros 55 milhões de brasileiros, que saem de casa sem nada no bolso e voltam com 50, 100 reais para alimentar a família.

Eles não têm acesso a crédito nem maquininha e gastam tempo e energia cobrando seus clientes à moda antiga.

Partindo desse sonho, começamos o serviço ContaPaga, que depois virou o Moneto.

Minha tese era bem forte. Nós entramos no Google Campus, ganhamos prêmios, fomos selecionados em diferentes programas de aceleração e, no ano passado, fomos um dos negócios escolhidos para participar do Radar Santander, em parceria com a Endeavor.

Porém, mesmo com tudo isso engatilhado, não conseguimos convencer investidores. Quando um fundo grande se interessou, nós focamos nesse aporte para acelerar o crescimento da empresa. Na última hora, ele desistiu.

Isso foi este ano. Nós nos vimos com o Radar chegando, todas as oportunidades de crescimento na nossa frente e a gente sem dinheiro. Reduzimos, então, a empresa pela metade e fui atrás de quem sabe mais do que eu para me ajudar.

No Radar eu entendi de verdade a importância da mentoria.

Sem dinheiro investido, com o caixa acabando, tínhamos que dar um tiro certeiro. Muito estudo e muita conversa depois, achamos um ângulo: microcrédito, começando com o mercado de venda direta.

De fevereiro para cá, fizemos vários testes sabendo que ia dar merda – mas sabendo também que teríamos que passar pela merda para aprender como fazer. E aprendemos muito.

Resultado: o comitê do Santander decidiu este ano que nós éramos a única fintech autorizada a oferecer microcrédito — sem ser modelo solidário e sem necessidade de abrir conta no Santander.

Toda essa história me trouxe até aqui. E se tem uma coisa que quero deixar de mensagem é:

Não diminua seus sonhos para caber no tamanho dos seus medos.

Somos programados para ficar estático. O sonho existe justamente pra rebocar a gente além do medo. Quem empreende vai ficar sem chão várias vezes na vida. É parte da jornada.

Mas o que pouca gente sabe é que, quanto mais você fica sem chão, mais rápido aprende a voar.