Como o Descomplica fez do aprendizado contínuo uma estratégia de crescimento

Laís Grilletti
Laís Grilletti

Time de Conteúdo

Marco Fisbhen é, antes de tudo, um professor. Mas foi sua busca por escala que o levou a derrubar as paredes para criar a maior sala de aula online do mundo: o Descomplica.

É provável que já tenha acontecido com você em uma aula do colégio. O conceito parecia nebuloso, as ideias desconectadas e você não tinha ideia de como chegar na resposta do final do livro. De repente, com uma explicação diferente, uma analogia, um esquema na lousa, forma-se um pequeno feixe de luz no seu cérebro. São os neurônios se comunicando, as sinapses gerando impulsos nervosos, energia, eletricidade, luz. É nesse momento que você pensa, em alto e bom som: ah, agora eu entendi!

Para o Empreendedor Endeavor Marco Fisbhen, esse instante de compreensão é a melhor parte de ser professor. Entrar em uma sala de aula com 200 pessoas, caneta no bolso, piadas na manga, e a missão de explicar física para estudantes de um jeito leve e divertido. Observar no rosto de cada um a reação, em tempo real. O entendimento que vai se formando, aos poucos, durante a explicação. Nos 12 anos em que trabalhou como professor de cursinho, Marco não tinha dúvidas: aquele modelo de educação funcionava. Mas poucos alunos tinham acesso a ele. Estava ali a oportunidade de tornar o modelo de ensino escalável e acessível a milhões de pessoas.

Das aulas do cursinho, Marco desenvolveu a paixão por ensinar. Do curso de Engenharia, a busca por escala e processos replicáveis. Assim, quando o YouTube começava a se popularizar no Brasil, da mistura do professor de física com o engenheiro, fez nascer um empreendedor de educação.

Conhecendo um novo universo

Essa jornada teve início em 2009. Andando pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, Marco parou na frente da vitrine de uma das lojas. Era um daqueles estandes que vende memória para computador, CDs de instalação do Windows e alguns equipamentos de tecnologia. Comprou ali uma câmera.

Levou para casa, conectou na televisão de tubo, e fez o primeiro teste. Enquadrou o rosto, direcionou o olhar para a câmera e viu, pela primeira vez, a própria imagem na TV. Já tinha dado aquela aula centenas de vezes. Mas, agora, poderia chegar em milhares de alunos. Aquele poderia ser um caminho para escalar seu trabalho como professor.

Foi atrás de um curso de edição de vídeo para experimentar novas linguagens, até encontrar, por coincidência, um amigo de longa data, que era empreendedor. Conversando sobre o projeto, o amigo comentou que estava acontecendo uma competição global de startups, o Desafio Intel. Faltavam poucos dias para as inscrições se encerrarem, mas ainda dava tempo de Marco escrever um plano de negócios e enviar pelo site. Não custava tentar. Feito isso, alguns dias depois, recebeu a devolutiva: tinha sido selecionado para a semifinal.

As primeiras sinapses

Para Marco, ganhar a competição era o que menos importava. Aquela seria sua entrada para um novo universo, a chance de respirar uma nova atmosfera. Lá, conheceu Ernesto Weber, do Gávea Angels, que o convidou a apresentar sua ideia de negócio em uma convenção que eles fariam meses depois. Marco topou o convite. Passou os meses seguintes mergulhado nos principais livros para startups. Lia 10 horas por dia, aproveitando o tempo livre entre uma aula e outra. Em menos de seis meses, já podia conversar tranquilamente com alguém sobre negócios, com fluência nos assuntos e entendimento do mercado.

Alguns desses títulos, ele lembra até hoje. Sobre investimento e acesso a capital, leu os livros Venture Deals, de Brad Feld, e Term Sheets & Valuations, de Alex Wilmerding. Sobre negócios disruptivos e inovação, leu o clássico de Chris Anderson, A Cauda Longa, e O Dilema da Inovação, de Clayton M. Christensen. Além dessas obras, também se aprofundou nas ideias de Seth Godin com o livro Marketing de Permissão.

Essas leituras aceleraram o aprendizado de Marco e o prepararam melhor para esse novo mundo que se abriu — e para a conversa com o Gávea. Quatro meses depois de fazer o pitch, o empreendedor fechou a primeira rodada early stage com três investidores anjo. Com esse capital e um prêmio recebido pelo Instituto Natura nascia, em março de 2011, o Descomplica.

Ampliando o alcance sem perder profundidade

A plataforma do Descomplica traz o melhor dos dois mundos: a escala do digital com a experiência real de sala de aula. Sua proposta é explicar em cinco minutos o que um aluno estava tentando entender há tempos.

“Mesmo que eles tenham muitos meses, poucas semanas ou algumas horas, o que nós somos capazes de entregar para ajudar alguém a ser aprovado no vestibular, no ENEM, na OAB ou em qualquer outra avaliação?”

Para responder a essa pergunta, Marco encontrou dois caminhos. O primeiro é apostar em vídeos gravados e ao vivo que falem a língua do aluno e sejam interativos, engraçados, ousados e eficientes ao conduzir o aluno do ‘não tenho ideia’ ao ‘agora entendi’. Na plataforma, o estudante pode avaliar sua evolução em simulados e interagir de forma dupla: tirando dúvidas com o professor e conversando com outros alunos pelo chat. Dessas conversas, já surgiu até casamento!

Já o segundo caminho é construir uma organização que vive o que entrega: aprendizado contínuo. O crescimento é orientado pelas metas, mas também pelo processo de aprendizado do time. Um ciclo de experimento, aprendizado e repetição.

O mindset de experimentação está em tudo que fazem: do lançamento de uma nova feature à estratégia de crescimento.

Agir como cientista é o valor que leva cada um do time a investigar novas possibilidades, acelerar a curva de aprendizado e manter o DNA de startup, mesmo crescendo em alta velocidade.

Foi assim que o Descomplica conseguiu inventar uma nova definição de negócio escalável em educação. Hoje, o site recebe 32 milhões de visitantes únicos por ano para assistir a mais de 25 mil aulas, com a projeção de dobrar o tamanho do time até o final de 2019, chegando a 400 pessoas.

A comunidade de alunos e professores é tão vibrante que, em 2016, eles realizaram a maior aula online ao vivo do mundo, reunindo mais de 1 milhão e 200 mil estudantes na véspera do ENEM.

Antes de tudo, professor

O que Marco tem descoberto, nesse caminho, é que o papel de um líder se parece muito com o de um professor.

“Meu trabalho é esse como fundador. Pensar em como explicar modelos e traduzir as ideias que estão na minha cabeça para compartilhar com todo mundo.

Por exemplo, não existe teste A/B que deu errado. Mesmo que o resultado não seja positivo, você aprendeu algo que não funciona. Mas é difícil escalar esse aprendizado. Como eu convenço 200 pessoas de que não existe experimento que dê errado?

Já estive em reuniões com o time nas quais o planejamento parecia muito complexo. Exigiria grande esforço da equipe de engenharia, mais budget e mais gente.

Em situações assim, eu sempre digo:

— Eu não sei dar um duplo twist carpado, mas eu sei dar cambalhotas. Vamos começar pelas cambalhotas.

Como você faz algo simples hoje que vai gerar um aprendizado na próxima semana?”

“Faz o simples. Faz isso toda semana. Depois de 120 semanas, quando você olha para trás, se dá conta: você mudou o mundo.”

Inventores de novos mundos

Nessa jornada, Marco encontrou novas fontes de aprendizado. A estante, que antes era ocupada pelos primeiros livros de negócios, agora tem outros títulos. Cada um deles ajuda Marco a responder a uma pergunta:

Quem no mundo está inventando novos mundos?

“São os autores de ficção. Aqueles que criam fantasias, universos imaginados e realidades impossíveis. A maioria dos empreendedores não está construindo algo novo, está replicando o que já existe. Mas se eu quero me inspirar para inventar um mundo que não existe, preciso encontrar quem faz isso bem.”

Ao lado deles, Marco também cultiva as ideias de pensadores que se dedicaram a entender melhor o ser humano.

“O ser humano é mais ou menos o mesmo desde o início dos tempos. A solução é digital, mas é uma solução nova para problemas antigos. Então eu vou buscar, por exemplo, o que escreveram sobre o tédio em 1690. Descubro, então, porque o jogo da cobrinha — aquele do celular — ficou tão popular. O tédio das pessoas de 2018 é o mesmo tédio de 1690. Mas a análise crítica desse tema foi melhor feita por um filósofo do século XVII que passou 30 anos estudando o tema do que por um Product Manager em um blog post.

Todos os problemas que resolvemos já foram resolvidos por alguém na história da humanidade. O exercício de física que eu dou para os meus alunos é exatamente isso: um problema que já foi resolvido por alguém há algumas décadas.”

A visão de Marco revela bem de qual matéria são feitos os empreendedores. São eles que, antes de qualquer um, conseguiram criar conexões que geram novas ideias e enxergar relações nunca antes vistas. Compreenderam que empreender é um caminho de aprendizado contínuo. E que o mundo é uma caixa de ferramentas espalhadas pela história, à disposição de quem deseja mudá-lo. Basta o desejo genuíno de aprender.