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A jornada de liderança: o que aprendi?

Marcelo Hoffmann
Marcelo Hoffmann

Marcelo Hoffmann, Partner da ABSeed Ventures e mentor Endeavor.

Este depoimento é o resultado de um convite do time Endeavor para compartilhar alguns aprendizados atuando como mentor. Confesso que não costumo escrever sobre a minha jornada pessoal, mas o conteúdo exige uma breve contextualização sobre como cheguei até aqui.

No começo de 2011, depois de dez anos atuando como advogado, comecei a minha primeira jornada empreendedora na rede de cosméticos Empório Body Store. Os fundadores, o Tobias e o Francisco, me deram a oportunidade de virar sócio via vesting, logo depois de concluirmos uma rodada de investimento liderada pelo Helio Seibel, empresário e investidor.

A Empório Body Store crescia em ritmo intenso e chamava muita atenção no mercado local. Pouco tempo depois, no final de 2013, o controle da companhia foi vendido para a The Body Shop International, que ainda fazia parte do grupo L’Oréal – líder global em cosméticos. Nos anos seguintes, a The Body Shop conduziu o roll out de quase 140 pontos de venda no Brasil e concluiu a aquisição de 100% de participação acionária na Empório Body Store. 

Num período de quase cinco anos, pude encarar desafios como advogado, sócio e board member da joint venture constituída pela The Body Shop no Brasil. Tive a chance de integrar um conselho formado por executivos globais, de encarar um ambiente de negócios instável e de vivenciar um turn around típico desse perfil de operação. 

Lições aprendidas

Essas experiências e aprendizados me levaram a lugares jamais imaginados: me tornei founding partner da ABSeed Ventures; instrutor do IBGC para temas ligados a startups e scale-ups; e mentor Endeavor para venture capital, governança e acesso a capital. 

É sobre isso que escrevo hoje.

Para garantir uma estrutura adequada à reflexão proposta, vou me socorrer do próprio framework de governança desenvolvido pelo IBGC com o apoio da Endeavor. Nessa linha, parto da premissa de que a jornada empreendedora passa por fases distintas, indo de ideação, validação, tração, até a escala. Durante esse ciclo, existem quatro pilares temáticos centrais que fazem parte da vida corporativa de qualquer empresa. Esses pilares exigem uma atenção constante, em maior ou menor grau: 

(1) Sociedade e Estratégia, 

(2) Pessoas e Recursos, 

(3) Tecnologia e Propriedade Intelectual, 

(4) Processos e Accountability

Tomando como ponto de partida a minha atuação como advisor e mentor de centenas de empresas em vinte anos de atividade profissional, compartilho dois aprendizados não óbvios sobre a jornada da liderança que envolvem os pilares de Sociedade e Estratégia e de Pessoas e Recursos. 

Sociedade e Estratégia

Todos sabemos que o elemento essencial de uma sociedade é assegurar um alinhamento permanente entre fundadoras e fundadores. 

Isso parece trivial, mas ganha complexidade quando percebemos que faz parte da jornada um movimento frequente de retirada de fundadoras e fundadores e/ou de entrada de novas pessoas na sociedade. Todo novo layout societário exige uma acomodação de objetivos em busca da sinergia e da convergência necessárias, numa prática quase diária do mantra disagree and commit.

Essa visão sobre alinhamento em prol de objetivos comuns traz consigo uma exigência e uma capacidade de saber planejar: é essencial que a liderança tenha a habilidade técnica necessária para colocar tudo em perspectiva, projetando, aos menos, dois cenários possíveis, com efeitos de curto e de longo prazo, baseados em premissas claras, contendo o impacto financeiro das escolhas propostas. 

Alinhamento societário e planejamento de cenários parecem demandas super triviais, mas é nesse ponto que muitas lideranças teimam em falhar. É nesse momento que percebemos a diferença clara entre construir empresas grandes ou grandes empresas. 

Como causa raiz para esse desafio, trago uma lição que um dia escutei, passei a testemunhar e agora endosso por aqui: toda liderança tem que ser boa em Produto, Marketing, Vendas, Pessoas e Finanças. 

O ideal é ser uma liderança nota dez em ao menos uma dessas áreas e, no mínimo, uma liderança líder nota 7 nas demais. 

Busque excelência naquilo em que você é melhor. Em especial, busque aprimorar o seu conhecimento de forma ávida em relação àqueles aspectos do negócio que você não domina tão bem. A jornada completa demandará que você performe muito bem em todas as áreas e que seja excelente em, ao menos, uma área do seu negócio.  

Pessoas e Recursos

Em termos de Pessoas e Recursos, o básico bem feito sugere uma cartilha de cultura forte, equidade, liderança pelo exemplo, visão de ciclos, respostas ágeis,  autocrítica e multidisciplinaridade. 

Fácil de falar, difícil de fazer e de antever, sobretudo para empreendedoras e empreendedores  de primeira jornada.

Eu também poderia mencionar que as lideranças devem ser recrutadas e formadas pensando em ciclos subsequentes, por antecipação, e não apenas pensando no ciclo de desafios presentes, para apagar incêndios diante de dores e necessidades iminentes. 

Recrutar, capacitar e avaliar pessoas, com incentivos corretos e bem comunicados, é um segundo aspecto aparentemente trivial que, ao meu ver, também têm se apresentado como gargalo para o êxito da grande maioria das organizações.        

Seguindo a linha de lições aprendidas, ao olhar para a essência desse desafio, gosto de compartilhar um pensamento que é fruto de observação longínqua, atenta e permanente: ouso dizer que, na imensa maioria das vezes, o futuro de uma organização se define nos dois primeiros ciclos de contratação de lideranças, numa etapa da vida empresarial em que uma única pessoa ainda é capaz de causar uma absurda mudança no negócio.    

O primeiro ciclo de contratação essencial de lideranças se dá, em média, quando o time tem entre 20 e 50 pessoas. Nesse momento, a liderança formada tem que ser aspiracional, pois ela ajuda a definir o melhor destino – ou seja, aonde queremos chegar. 

Líderes que não inspiram atraem profissionais que não se inspiram, e, como resultado, formam-se times que usualmente performam abaixo do necessário para uma jornada de excelência.

Já o segundo ciclo de contratação essencial de lideranças hipoteticamente se dá quando o time tem entre 50 e 150 pessoas. Nesse momento, a liderança necessária tem que ser altamente técnica, pois ela define a melhor rota – ou seja, como chegaremos ao nosso objetivo. São características usuais dessas lideranças a experiência comprovada com o desafio do próximo ciclo, uma alta capacidade de delegar tarefas e de gerenciar times, uma visão integrada do projeto, a habilidade de se ajustar a variados contextos e, não menos relevante, um fit cultural que garanta pousos e decolagens suaves.

Não contrate líderes por necessidade ou acomodação. Não relativize a capacidade de inspirar pessoas e a habilidade de formar times, essencial ao primeiro ciclo de contratação de lideranças. Não subestime o desafio técnico daquilo que está por vir, essencial ao segundo ciclo de contratação de lideranças. Se você não tem intimidade com esse desafio, traga, antes de tudo, alguém incrível para liderar a área de pessoas e, sempre que necessário, contrate serviços de apoio externo com experiência comprovada. 

O resultado da jornada

É uma grande oportunidade poder escrever para uma comunidade sofisticada como a rede Endeavor. Meu texto não tem qualquer pretensão de se amparar no melhor rigor analítico da estatística ou no ineditismo autoral da reflexão. 

Acredito, sinceramente, que o meu relato tenha um viés de mera palavra de conforto e empatia àqueles que enfrentam ou já enfrentaram esses mesmos desafios. 

Não me apego à ideia de propor uma verdade absoluta ou uma receita pronta para uma jornada muito mais complexa do que aquilo que se apresenta a olhos nus.  

Todos os dias somos instados a fazer escolhas e a tomar decisões. São as escolhas de hoje que definem o resultado de amanhã. Muitas vezes não temos a chance de retornar ao ponto anterior para refazer uma escolha ou para mudar o caminho. Sendo assim, compartilho provocações que são fruto da mera observação e da troca, com a visão de alguém que almeja contribuir para evitar erros comuns ou simplesmente para fomentar um breve momento de reflexão. 

E, por fim, para lembrar que a Endeavor sempre está por perto, ajudando a conectar com pessoas incríveis e grandes referências em jornadas empreendedoras de sucesso.