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Venture Capital no Brasil: como chegamos até aqui e o que vem daqui pra frente

Romero Rodrigues
Romero Rodrigues

Sócio da Redpoint eventures, co-fundador do Buscapé e Mentor Endeavor

Vivemos um momento único quando se trata de capital no Brasil. Os últimos 24 meses foram divisores de águas para as empreendedoras e empreendedores de impacto. E para navegarmos nesse cenário de Venture Capital descentralizado e abundante, precisamos entender como chegamos até aqui. 

Tudo começa com a queda de juros inédita na década de 2011 a 2020, com uma taxa Selic de 2% ao ano. Isso fez com que o investidor brasileiro, acostumado com uma Selic de 14 – 15% ao ano, tivesse que trabalhar duro para fazer o dinheiro render. O apetite para risco – e não só risco, falta de liquidez – mudasse.

A queda de juros também fez com que os bancos imprimissem mais dinheiro. Consequentemente, os ativos inflacionaram e ganharam mais valor. E ativos, aqui, me refiro a bitcoin, ouro e a própria Amazon.

Essa combinação resultou em um aumento do fluxo de capital no mundo todo, especialmente com foco em tecnologia. 

Esse capital encontrou um ecossistema brasileiro mais preparado. Mais maduro e mais provado, com mais track record. Já que foram 10 anos de investimento contínuo no ecossistema.

Até 2000, também havia um grande fluxo de capital, mas com a explosão da bolha, os investimentos foram suspensos. O que fez o ecossistema sobreviver foram as saídas das empresas de tecnologia, como aconteceu comigo e com o Buscapé em 2009. Essas primeiras saídas pós bolha fizeram o dinheiro voltar para as investidoras e investidores, que passaram a investir nas novas empresas de tecnologia, como a RD Station, Gympass e Nubank. E, com isso, o capital ficou cíclico no ecossistema novamente. 

Nisso, pulamos para 2020, ano em que a pandemia impulsionou a tecnologia. As interações digitais se tornaram mais importantes para todas as pessoas do mundo. Eu adoro essa imagem do Twitter para exemplificar esse fenômeno: 

A grande verdade é que o CPF é que foi digitalizado. Meu pai nunca foi adepto à tecnologia, ele sempre dizia que não teria celular porque gostava de contato físico. Hoje, sem alternativa, ele conversa comigo e com os netos pelo Zoom, pede comida no iFood e remédios no Rappi. 

Isso criou uma chuva de capital. O apetite de investidoras e investidores aumentou para empresas de tecnologia. E ouso dizer que para todos os estágios. 

Em 2020, foram 653 investimentos na América Latina, totalizando U$ 16.3 bilhões contra U$ 15.3 bilhões investidos em 565 rodadas em 2019, de acordo com a LAVCA. Em um ano de pandemia – e a partir do segundo semestre, já que no primeiro os fundos se fecharam para ajudar as empresas a se adaptarem ao novo cenário. 

Assim, chegamos em 2021 com o ecossistema provado, maduro e com muita liquidez. 

Hoje, temos visto muitas entradas de capital. Mas também muitas saídas. A B3, por exemplo, tem se consagrado como uma alternativa para empresas de tecnologia abrir capital. Como o caso do Meliuz , que foi a primeira scale-up da Endeavor a abrir capital. 

E também, temos o fenômeno das SPACs chegando – uma SPAC é uma empresa, normalmente holding, constituída para levantar fundos, via IPO, para aquisição futura de outra empresa. Se é bolha ou não, já tem muito capital levantado. São, aproximadamente, 4 ou 5 SPACs, com seus U$ 250 milhões, prontas para investir no mercado latinoamericano. 

E, de alguma forma, esse fluxo de capital também ajuda na educação de fundadoras e fundadores, que aprendem e amadurecem a cada rodada, mesmo naquelas em que as coisas dão errado. Assim, a cada deal, vemos captables mais saudáveis e empreendedoras e empreendedores mais bem preparados.

Mais preparo também significa que cada rodada ataca um objetivo de crescimento diferente. Objetivo concluído, começamos um novo round. É como a Teoria das Restrições, do Goldratt: não precisa melhorar tudo para melhorar o todo. Só precisa melhorar o gargalo. 

Para mim, como empreendedor e investidor, esse ciclo de capital é impressionante. A cada ciclo, as pessoas aprendem e o ecossistema fica mais maduro. A cada rodada de investimento, as empresas crescem e ficam cada vez mais prontas para virarem unicórnios, abrirem capital ou venderem para uma grande empresa.

Capital precisa entrar e sair. É preciso ser uma profecia auto realizável. Se Meliuz, Passei Direto e RD Station já mostraram os frutos dos seus primeiros investimentos de oito anos atrás, imagina o que já temos plantado e esperando a colheita para os próximos sete anos?

É assim que vamos construindo um ecossistema com capital abundante e descentralizado e que constrói um Brasil melhor para o futuro. 

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Glossário

Deal – acordo.

Track record – desempenho histórico.