Não Peça Dinheiro Pra Sua Mãe

Martín Escobari

Capital é necessário, mas misturar família com negócios é uma estratégia que pode acabar com relacionamentos.

“Família é algo valioso demais para se desperdiçar em uma relação de negócios”, costumava dizer meu tio John. Ele não era meu tio de verdade, mas a Universidade de Harvard insistia em designar um mentor para ajudar os calouros que vinham de países exóticos. Sendo boliviano, eu era o par perfeito para o John, que naquele mesmo ano acolheu um jovem do Nepal, proveniente de uma tribo nômade.  John Linsey era um advogado 

treinado em Harvard que passou a vida escrevendo testamentos para famílias de Boston. Ele viu em primeira mão, vez após vez, famílias se diluírem devido a divergências de interesses econômicos. Acompanhou, também, boas empresas se darem mal por causa das interferências dos feudos familiares que as controlavam. “Por que arriscar?” ele dizia.

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Claro que todos conhecemos negócios familiares bem sucedidos. Não quero fazer um movimento contra todas as empresas familiares. Meu ponto é mais simples do que isso. No meu último post, defendi a importância de conseguir investidores para seu novo negócio o mais cedo possível. Este artigo é para convencê-lo de que esse dinheiro não deve vir da sua família.

Eu sei por experiência própria que o dinheiro da “mamãe” é o tipo mais caro que existe. Minha mãe investiu na segunda rodada de captação do Submarino em 1999. Eu não precisava do dinheiro dela de verdade, mas os valuations estavam crescendo tão rápido que me pareceu algo legal para oferecer. Ela investiu um valor substancial para ela, e contou feliz aos amigos que também estava ganhando dinheiro com ações de internet. Em 2002, as coisas ficaram feias para o Submarino e tivemos que realizar uma rodada de salvação, com retornos preferenciais que podiam fazer desaparecer todo o valor dos investidores anteriores.  Na época, minha mãe perguntou “Martin, você vai conseguir devolver meu dinheiro?” ao que respondi “Claro, mãe. Aqui está seu dinheiro, você não vai perder dinheiro com seu filho.”

As coisas acabaram dando certo para o Submarino. Em 2005 já havíamos aberto o capital da empresa e as ações tinham triplicado desde o IPO. No Natal, mamãe perguntou novamente “E então… quanto dinheiro estou ganhando com o Submarino?”

Eu e minha mãe nos entendemos, e eu fiquei orgulhoso que ela conseguiu ganhar dinheiro com o Submarino. Mas a anedota ilustra a facilidade com que as coisas podem se confundir entre familiares.

Um caso mais dramático em que as coisas deram errado com a mistura de família e negócios aconteceu com um amigo de Harvard. Ele conseguiu um duplo perde-perde: fundou uma empresa com sua noiva E o investidor anjo era seu futuro sogro. Como era de se prever, no prazo de um ano o negócio cedeu, eles não falavam mais com o sogro dele e o casamento foi cancelado.

Por sorte, meu amigo abriu uma segunda empresa que tem sido um enorme sucesso, e após um tempo as coisas esfriaram, ele voltou com a garota e hoje tem dois lindos filhos. Até a relação com seu sogro melhorou. Sabiamente, eles decidiram nunca mais fazer negócios juntos novamente. 

Martín Escobari  foi co-fundador e CFO do Submarino.com e hoje é sócio da Advent International em São Paulo. Mentor Endeavor desde 2002.