Bate bola sobre IPO com Rodrigo Galindo, CEO da Cogna Educação

Endeavor Brasil
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A Endeavor é a organização líder no apoio a empreendedores de alto impacto ao redor do mundo. Presente em mais de 30 países, e com 8 escritórios em diversas regiões do Brasil.

Rodrigo Galindo cumpre o seu propósito de transformar a vida das pessoas como CEO da Cogna Educação, uma das principais organizações educacionais do mundo. Liderando uma empresa de capital aberto, ele tem experiência em abertura de capital na Bovespa e, recentemente, na Nasdaq através da Vasta Educação, subsidiária da holding. 

Ele também pratica o giveback doando conhecimento, horas e capital como membro do Conselho e Embaixador da Endeavor. Em um bate papo com nossos EEs, Galindo compartilha conosco seus aprendizados sobre IPO. Confira os principais insights.

Mas, antes, o que significa IPO?

IPO é a sigla em inglês para Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial. É o processo pelo qual uma empresa abre seu capital pela primeira vez, por meio de ações que são negociadas na bolsa de valores.

E já que estamos definindo conceitos, vale também entendermos o que significa abrir o capital de uma companhia: de acordo com a legislação brasileira, uma organização de capital aberto é aquela que pode ter seus valores mobiliários, tais como ações, debêntures (títulos de créditos representativos de empréstimos) e notas promissórias, negociadas de forma pública – geralmente na bolsa.

Ou seja, somente empresas de capital aberto podem ter valores mobiliários negociados publicamente.

Qual é o momento adequado para uma empresa abrir IPO e quais são esses indicativos que ajudam nessa decisão?

Rodrigo Galindo: “Ao abrir capital, a empresa terá novas responsabilidades e, por isso, deve ser um passo muito bem planejado. Por outro lado, faz a companhia ter um melhor nível de governança e disclosure

IPO é uma forma de capitalizar para acelerar a execução de um plano estratégico. Se a companhia não precisa de capital – por gerar caixa suficiente com a própria operação ou tem acesso a fontes de recurso mais simples -, pode optar por outras alternativas de financiamento, que não seja a oferta pública de ações. 

IPO é meio, não  fim. É preciso ter uma necessidade ou objetivos claros ao seguir nessa direção.

Use of proceeds bem definidos darão sustentação ao processo de abertura de capital, da atração de investidores alinhados com sua agenda de crescimento às respostas para uma possível oscilação do preço das ações da companhia no mercado. Um business plan bem estruturado e que explicite a alocação de recursos para execução do plano – ex. aquisição de outras empresas, investimento em tecnologia, aquisição de novos clientes, entrada em novos mercados – também é um indício que a empresa está pronta para avaliar um IPO. E, certamente, nível de governança compatível com o processo.” 

Quanto tempo que precisamos gastar falando com investidores?

Rodrigo Galindo: “É natural que o tempo gasto com relacionamento seja maior no início, já que acaba sendo um processo de educação do mercado em relação à companhia. Depois, o tempo utilizado acaba sendo para comunicação do ‘what is new’ e  sobre o futuro da companhia. Hoje, gasto de 10 a 15% do meu tempo com essa atividade.” 

Como fica a moral do time no dia a dia pós IPO com as altas e baixas do mercado? Como educá-los e mantê-los focados no longo prazo?

Rodrigo Galindo: “É preciso ter consciência que o timing de alguns investidores e da companhia não necessariamente serão os mesmos. 

Por exemplo: um processo de mudança na companhia demanda energia do time e caixa e pode não gerar valor para o investidor no curto prazo, mas faz sentido para a empresa pelos resultados esperados no médio prazo.

Uma dica em momentos de ansiedade em relação à volatilidade das ações é refletir: estou fazendo a coisa certa pra entregar valor a longo prazo para a companhia? Se sim, essa convicção e confiança também precisam ser repassadas para o time. Fazer a coisa certa não necessariamente mobiliza o preço da ação no curto prazo, mas uma hora o valor chega.” 

O capital em forma de IPO atinge valuations diferentes do privado, correto? Se sim, passa a ser uma motivação para este tipo de capital?

Rodrigo Galindo: “Vimos VCs pagando múltiplos altos e IPOs baixos. Na regra, IPOs trariam múltiplos muito mais altos do que negociações privadas, mas o cenário está mudando. Fundos de Growth Capital estão familiarizados com modelos de negócio de alto crescimento, pagam múltiplos mais altos e compreendem o potencial de captura de valor em alguns anos.

Geralmente IPOs trazem múltiplo adicional a outras fontes de financiamento privado. Por outro lado, carregam mais despesas administrativas e dispêndio de tempo e energia do management team.

Na minha opinião pessoal, empresas muito pequenas perdem mais do que ganham ao realizar uma oferta pública. Não sei dizer qual seria a régua mínima, porém enxergo como exceção as empresas pequenas de altíssimo crescimento, com indícios de atingirem patamares relevantes de receita e geração de caixa no curto prazo. 

É natural que bancos tenham incentivos para estimular realização de um IPO. A minha dica é: escutar a opinião e avaliação deles, porém, pondere internamente sobre os fundamentos apresentados pelas instituições.” 

Como você endereça conflito de interesse entre bancos, empresa e investidores? Como fazer para evitar um underpricing devido a negociações?

Rodrigo Galindo: “Na empresa: tenha um comitê interno para tratar o tema. No final do dia, ter discussões sobre IPO ajuda a preparar companhia como um todo. 

Banco de investimento: são parceiros fundamentais no processo de abertura de capital, do início ao fim. Serão um apoio importante na construção do case e storytelling. E, lembre-se, o banco que você aprofundar uma discussão sobre estratégia e oferta pública de ações provavelmente será o coordenador da oferta.

Importante ressaltar que o banco coordenador é o responsável bookbuilding. Então, tem papel fundamental na definição da faixa de preço que a ação sairá na oferta, a partir da demanda. Por isso, convencê-lo que o projeto é sólido e de alto potencial terá valor não só na precificação e definição de faixas, como também na defesa dos próprios bancos com potenciais investidores durante o processo. Ao compartilhar suas modelagens financeiras garanta entendimento das premissas, elas precisam ser robustas o suficiente para sustentar o business plan e os fundamentos, mas não complexas ao ponto dos próprios analistas não a dominarem.

Auditores: também são atores fundamentais. São eles quem aumentam o nível de escrutínio das demonstrações financeiras em função da diligência do processo de abertura de capital. Mantenha, na medida do possível, seus balanços e demonstrações auditadas. Isso é uma pré-condição que pode atrasar ou até mesmo impedir o IPO, se não respeitados os prazos de envio das documentações auditadas.”

Abrir IPO na NASDAQ ou B3?

Rodrigo Galindo: “Há prós e contras em cada bolsa. A maior diferença está entre listar no Brasil ou nos USA (seja Nasdaq ou NYSE). O processo de listagem é diferente e as obrigações como companhia listada também. O mercado de capitais americano é mais maduro e há mais flexibilidade na realização de ofertas (possibilidade de alteração da oferta durante o processo com menos implicações formais, mais agilidade na realização de follow-nos, etc). Por outro lado, há obrigações legais e contábeis específicas. Importante conversar muito com o banco advisor para entender essas diferenças e fazer a escolha correta.”

Quais seriam os “dont’s” que diria para um CEO durante o processo de abertura de capital?

Rodrigo Galindo: Há quase 10 anos, aprendi com um advisor que a gente nunca deve se esquecer dos fundamentos do negócio enquanto estiver em um processo de M&A ou fundraising. Continue com foco total na sua operação, afinal, se você não tiver história de growth e bons economics nos últimos anos, não terá história e case para convencer investidores.” 

Qual a mensagem final que você deixa para empreendedores e empreendedoras?

Rodrigo Galindo: “Cuidado com o ‘canto da sereia’, pois, IPO é uma forma de capitalizar a companhia para acelerar execução de um plano de crescimento. Já vi planejamentos que o target da empresa era “abrir o capital em 5 anos”, seria melhor ler “quero servir 10 milhões de clientes e ter X% de marketshare. Tomem uma decisão consciente a respeito.” 

mac cta

Glossário

Advisor – orientador.

Bookbuilding – processo de geração, captura e registro da demanda dos investidores por ações.

Business plan – modelo de negócios.

Disclosure – deixar números e informações financeiras e não financeiras de uma empresa acessíveis e empregar transparência em sua relação com stakeholders.

Dont’s – práticas não tão boas.

Economics – economia.

F-1 – Formulário de registro na Nasdaq.

Growth – crescimento.

Management – gestão.

Marketshare – a porcentagem das vendas totais em um setor gerada por uma empresa específica.

Roadshow – rodadas de apresentação de ativos e negócios para potenciais investidores. 

Underpricing – quando a empresa vende suas ações por um preço bem menor do que poderia.

Use of proceeds – o demonstrativo de uso de receitas é um documento que resume como uma empresa que visa garantir capital adicional vai gastar os fundos. 

What is new – o que é novo.