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Loft, Printi e Canary: conheça a história dos empreendedores por trás (e o impacto além) dessas empresas

Endeavor Brasil
Endeavor Brasil

A Endeavor é a rede formada pelas empreendedoras e empreendedores à frente das scale-ups que mais crescem no mundo e que são grandes exemplos para o país.

De sonho em sonho, eles criam negócios que impactam o ecossistema empreendedor do Brasil. Conheça a história dos fundadores da Printi, Canary e Loft. 

Dizer que o Brasil oferece inúmeras oportunidades é chover no molhado. Mesmo em tempos mais turbulentos – ou talvez principalmente nesses tempos –, um país continental como o nosso não deixa de proporcionar chances valiosas a empreendedores e empreendedoras que se mantêm alertas.

Mas, construir negócios de alto crescimento envolve sonho grande, muita preparação e um caminho árduo. É o que mostram os protagonistas desta história. 

Assim como tantos outros da mesma geração, Mate Pencz e Florian Hagenbuch se formaram em universidades de ponta e logo conseguiram empregos em grandes corporações do mercado financeiro. Daí em diante, o caminho era mais do que conhecido: trabalho, viagens, trabalho, promoções, mais trabalho, e por aí vai.

Não demorou muito para que os dois chegassem a uma conclusão: não era bem essa vida que queriam levar. Vieram parar em São Paulo, onde criaram a primeira gráfica online do país a oferecer produtos de alta qualidade com preços competitivos.

Mas para que você entenda melhor o que está por trás dessa reviravolta, é preciso retroceder um par de décadas e percorrer alguns milhares de quilômetros, até o continente europeu. Alemanha, década de 90: é lá que essa história começa.

Tão próximos, tão distantes

Logo após a queda do muro de Berlim, a família de Mate Pencz deixava a Hungria para se instalar em Stuttgart, em uma Alemanha recém unificada. O engenheiro Josef, pai de Mate, havia recebido uma oferta de trabalho, e lá o garoto morou durante sua infância e adolescência.

Stuttgart também era a cidade natal da família de Florian Hagenbuch. Os dois tinham praticamente a mesma idade e, caso o destino quisesse, poderiam ter se tornado melhores amigos logo ali. Mas Kai Hagenbuch, pai de Florian e executivo de uma multinacional alemã do mercado gráfico, foi transferido para o Brasil, e levou junto seu filho, Florian. 

Ou seja, enquanto Mate estava chegando na Alemanha, Florian estava de saída para viver em terras tupiniquins.

Dos 4 aos 18 anos, os futuros empreendedores estiveram a um oceano de distância. Foi só no verão de 2008 que os dois finalmente se conheceram. Mate foi para Boston, cursar Economia na Universidade de Harvard. Florian, por sua vez, estava, de novo, a poucas horas de distância – na Universidade da Pensilvânia, cursando Finanças e Relações Internacionais em Wharton.

O encontro entre eles aconteceu durante um summer internship – um estágio de curta duração – em um grande banco norte-americano. Mate e Florian logo descobriram afinidades que iam além das carreiras e das origens – a principal delas, sem dúvida, era a ambição de fazer mais. O encontro se repetiu no ano seguinte, quando os dois se encontraram em Londres para um novo summer job.

O primeiro plano: de fuga

Em 2010, já formados, os dois partiram definitivamente para a capital inglesa. Conseguiram empregos em grandes instituições do mercado financeiro e resolveram montar uma república. E, ainda que trabalhassem por quase cem horas semanais, arranjavam tempo para compartilhar as impressões – quase sempre desanimadas – sobre a vida profissional que acabara de começar.

As conversas costumavam acontecer a partir da meia-noite, quando Mate e Florian chegavam do trabalho. Abriam uma cerveja e, pouco depois, os corações: o que mais os incomodava era a sensação de que poderiam fazer muito mais.

A gente se sentia subaproveitado.

Mate Pencz

Eles sabiam que, se continuassem fazendo tudo certinho, seriam promovidos até chegarem a sócios da empresa; e isso afastava qualquer emoção do caminho. Deixava-o previsível e entediante. Era tudo o que não queriam.

Saber quais eram os próximos passos era desconfortável, e foi naquela época que começamos a experimentar com essa ideia de empreender.

Florian Hagenbuch

Mesmo que as carreiras estivessem bem encaminhadas, e por sedutores que fossem os motivos para permanecerem nelas, o desconforto falava mais alto. Florian compartilhava do desejo de aventuras de Mate, e também sonhava com desafios maiores.

Onde as oportunidades estão de braços abertos

Empreender parecia o caminho certo a trilhar. Mas, para onde ir? 

Ambos já haviam tido experiências de longa duração na China, em Cingapura e em outros países da Ásia, e concordavam quanto às oportunidades criadas por economias em desenvolvimento.

Foi quando Florian propôs que considerassem o país em que crescera e do qual guardava ótimas lembranças. Além disso, o ano era 2012; não custa lembrar que, como eles próprios afirmam, naquela época: o Brasil estava bombando na percepção do exterior. O Cristo Redentor estava na capa do Economist e, além disso, nascia naquela época a primeira grande onda de empresas de tecnologia, principalmente em e-commerce, no país. E muitas delas estavam sendo fundadas por estrangeiros: alemães, franceses e americanos. 

Mantendo a sinergia, os dois concordaram que esse o Brasil era destino promissor para empreender.

Para Mate, só faltava um (pequeno) detalhe: conhecer o país. Ele só ouvia o amigo falar daqui. Então, pouco antes de se demitir do banco em que trabalhava em Londres, fez uma rápida viagem para sondar o mercado. Completou a marca de 35 reuniões em uma semana e voltou muito bem impressionado com a receptividade local. 

Aí, não restaram dúvidas: era para o Brasil que viriam. 

Colchão no chão e confiança dos investidores

Por ter se desligado do emprego um pouco antes de Florian, Mate chegou sozinho por aqui. Instalou-se em um casarão com outros “dez caras” em Pinheiros – a maioria de estrangeiros que também chegavam ao Brasil para empreender. 

Eu ficava no terceiro andar, e nem era um quarto. Era um colchãozinho no chão, com mais três ou quatro gringos em volta.Mate Pencz

Na época, muita gente de fora também queria investir no país. Mate não perdeu tempo: montou uma apresentação de Powerpoint com oito páginas e, após uma rodada de investimentos que durou só uma semana, levantou cerca de 1,5 milhão de dólares.

Detalhe: a ideia de uma gráfica online ainda não existia.

Tudo aconteceu com base na rede de contatos e nas reputações exemplares de Mate e Florian. E com uma condição: que os dois se dedicassem integralmente ao empreendimento.

Uma lacuna do tamanho da Printi

Ao mesmo tempo, os futuros empreendedores trocavam ideias com Kai, pai de Florian. Profundo conhecedor da indústria gráfica brasileira, ele emitia opiniões de um lugar privilegiado: o de alguém que sabia o quanto esse setor poderia se desenvolver por aqui.

É um mercado imenso e pulverizado”, afirmava Kai. “Mas, em termos de tecnologia e inovação, ainda precisa avançar muito”. Ele se referia sobretudo a questões como e-commerce de produtos gráficos, que já avançava em outros países.

Quando realizaram suas pesquisas, Mate e Florian constataram que, embora gráficas de grande porte dessem conta de atender empresas do mesmo tamanho, o atendimento a pequenas e médias demandas não era lá essas coisas. Na verdade, era bem deficitário, no geral, já que ficava a cargo de gráficas menores, que muitas vezes não tinham muito compromisso com a qualidade.

Foi exatamente nesta lacuna que resolveram atuar. Combinando inovação tecnológica a produtos de alta qualidade, decidiram atender às fatias de mercado que consideravam não eram bem atendidas. Foi então que se materializou a ousadia desses dois estrangeiros de 24 anos: a Printi.

Um plano maior

O ano ainda era 2012 e as coisas eram bem diferentes do que são hoje. No começo, a Printi só atendia empresas e não tinha produção própria – trabalhava com a terceirização de todos os produtos que oferecia em sua plataforma online.

Mas não demorou para que Mate e Florian percebessem que seria possível ir ainda mais longe. A primeira decisão foi fazer uma expansão horizontal – diversificar, ampliar a linha de produtos oferecidos e o atendimento: pessoas físicas também passaram a ser atendidas.

Não importava se fossem dez mil cartazes para o Subway ou duzentos cartões de visita para uma psicóloga: a Printi garantia a produção, o preço competitivo e, mais importante, a distribuição. Isso porque, desde o começo, os amigos – agora sócios – traçaram o plano de atender o país inteiro. Montaram um esquema de distribuição com operadores de logística, e colocaram mais esse plano em prática.

O desafio da verticalização

A expansão vertical, por sua vez, aconteceu pouco depois e constituiu um dos grandes desafios enfrentados pela Printi. 

A decisão foi tomada em um período de muitos conflitos com os fornecedores. Problemas nos prazos de entrega e no acabamento dos produtos, que muitas vezes tinham que ser trocados, foram azedando a relação. 

Na época, éramos 30 pessoas em um escritório, terceirizando tudo. E achávamos que a cultura dos parceiros iria mudar, que o compromisso mudaria.” Mate Pencz

Não foi bem assim. Por isso, tiveram que elaborar mais um plano – este, bem expresso: o de montar uma fábrica própria.

Só que, durante o processo, a burocracia os pegou em cheio. Todo o equipamento era importado, e os dois não tinham ideia da dificuldade de se liberar uma impressora no Porto de Santos, por exemplo.

Conseguir habilitação para importar as máquinas, achar um despachante que ajudasse a trazê-las para a fábrica, lidar com a Receita Federal… foram muitas complexidades. O desafio de montar um negócio aqui no Brasil é isso: descobrir como as coisas funcionam.Florian Hagenbuch

Mas, no final, o sacrifício da verticalização valeu a pena. Do manuseio à distribuição, tudo era realizado ali dentro, sob o comando atento de Mate e Florian.

O auge

2014, 2015 e 2016 foram anos marcantes para a dupla.

2014 tem como marco a aprovação dos dois como Empreendedores Endeavor. Eles puderam contar com uma rede global de mentores e mentoras para apoiar, estrategicamente e emocionalmente, o crescimento acelerado da Printi. 

São quase seis anos de relação com a Endeavor. Sou fã da rede e da missão, que é acelerar empreendedores de alto impacto. As pessoas que doam – e recebem –  fazem isso em prol do empreendedorismo, então é muito certeiro. É uma organização autêntica, transparente e genuína. Isso é raro, principalmente em negócios de tecnologia.Florian Hagenbuch

O crescimento foi tão acelerado que, em 2015, a empresa chegava a 130 funcionários, tinha como previsão de faturamento 50 milhões de reais e uma taxa de crescimento acima de 100% todos os anos. Também foi quando, com 29 anos,  Mate e Florian tiveram seus nomes estampados na lista da Forbes de 30 empreendedores de destaque com menos de 30 anos de idade. 

2016 foi o ano da ruptura. A Printi recebeu um aporte da  líder mundial do segmento, a americana Vistaprint no valor de R$ 60 milhões com o objetivo de verticalizar ainda mais o negócio. Essa operação marcou o início da saída dos empreendedores, que já planejavam alçar novos voos. 

Próximo passo: o canário amarelo

Em paralelo às suas jornadas na Printi, Florian e Mate começaram a investir como investidores anjo. 

No Vale do Silício, um investidor anjo investe na empresa do outro. Florian quis trazer isso para o Brasil. “A 99 foi meu primeiro investimento anjo”, conta. 

Esse movimento os levou até a segunda empreitada: o Canary. Um fundo que foca em investimento seed, o primeiro capital institucional para uma empresa que começa a crescer. 

Da maior dificuldade do Canary, uma anedota histórica: o relacionamento com Jorge Paulo Lemann. Florian começava a conseguir fundos para o seu novo empreendimento, foi quando, por meio da Endeavor, conheceu uma das maiores referências em empreendedorismo do Brasil. E não só isso: Jorge Paulo Lemann investiu no Canary e foi um dos catalisadores para o fundo existir. 

A Endeavor foi muito importante para o desenvolvimento do Canary. Eu conheci o Jorge Paulo Lemann e o que nos une é a vontade de mudar o país pelo empreendedorismo.

Florian Hagenbuch

Um unicórnio germano-brasileiro 

Quem conhece Florian e Mate sabe que, ao saírem da Printi, eles logo entrariam em uma nova jornada empreendedora. 

Quando estava encerrando meu ciclo na Printi, busquei proativamente para um desafio um pouco maior. Pesquisei mercados e modelos de negócio e acabei encontrando o setor imobiliário, e percebi que era pouco tocado por tecnologia.Florian Hagenbuch

Percebendo que o processo de compra e venda de um imóvel hoje em dia pode ser uma experiência desgastante. Mate e Florian se juntaram a João Vianna, um empreendedor que  liderava a Maison São Paulo – startup de Real Estate focada em bairros nobres de São Paulo – para fundar a Loft em 2018. Uma plataforma digital que usa a tecnologia e dados para simplificar a experiência de seus clientes e transformar o setor imobiliário. 

Com a Loft, levamos o mercado imobiliário para a era do e-commerce.”

Florian Hagenbuch

loft captações

Mate, João e Florian.

Somando todos os aprendizados das empreitadas anteriores, a dupla, que virou trio, conseguiu, em apenas 16 meses, transformar a scale-up em um novo unicórnio brasileiro após receber aporte de U$ 175 milhões liderado pelos fundos Andreessen Horowitz e Vulcan Capital.

Apenas cerca de um ano depois, a empresa passou a valer US$ 2,9 bilhões e também conquistou mais um marco importante para o ecossistema: realizou a maior rodada da Venture Capital no Brasil, entrando para a lista das 10 empresas mais bem avaliadas do setor imobiliário ao redor do mundo.

Quando você começa sua segunda empresa, começa a se lembrar do último ano da empresa anterior. Na verdade, você tem que se lembrar do seu primeiro ano na empresa anterior.Florian Hagenbuch

O efeito multiplicador

A contribuição de Mate, João e Florian para o empreendedorismo brasileiro extrapola os limites das suas empresas – o que não é de se estranhar, já que o limite nunca foi muito a praia dos dois.

Empreendedores Endeavor empenhados em criar um ciclo virtuoso capaz de desenvolver o país por meio da tecnologia, eles inspiram, mentoram e investem em startups próximas a essa causa.

Hoje vejo vários empreendedores que criam empresas, mentoram, inspiram e investem em outros empreendedores. Esse é um legado que eu, Mate, Paulo Veras e outros começamos a construir lá em 2014.Florian Hagenbuch

De sonho grande em sonho grande, Mate, Florian e João vão elaborando os planos para ir além. O maior de todos, sem dúvida, é o de continuar quebrando paradigmas, experimentando o novo. E para isso, existe um mundo inteiro de oportunidades.