Day1 | Bel Humberg: você quer catar feijão ou diamantes?

Felipe Maia
Felipe Maia Endeavor Brasil - Time de Conteúdo

Eles não são fáceis de encontrar, difíceis de lapidar, mas têm um brilho único. Veja como Bel Humberg, fundadora de OQVestir, mantém acesa a busca por diamantes.

O avô de Bel Humberg tinha o seguinte ditado: uma pessoa pode ser catadora de feijão, e ficar caçando aquilo que não presta, que vai ser descartado, o que é ruim, ou de diamantes — aquelas que vão procurar no meio do rio, na lama, aquilo que brilha. Bel dizia ao avô que queria a segunda opção: buscar pedras brutas que podem ser lapidadas e ter um imenso valor.

Desde a infância, Bel, que levou, com suas sócias, o e-commerce de moda OQvestir do zero para um faturamento de R$ 100 milhões em seis anos, está em busca de diamantes: oportunidades, negócios, pessoas e conexões com imenso potencial de valor, desde que alguém esteja disposto a encontrá-los e lapidá-los. Nessa jornada, ela lembra de outro ensinamento do avô: “A história não fala dos covardes”.

Bel nasceu em São Paulo, em uma família tradicionalmente paulistana, mas isso não significava moleza: para qualquer gasto extra era preciso se virar: por isso, já dando bons sinais empreendedores, vendia ovo de páscoa, sanduíche natural, camisetas, dava aulas particulares…

Sempre muito intensa e esforçada, na hora de escolher a faculdade ela foi fazer logo duas: psicologia e direito. “A vida é só uma, e eu tenho tantos sonhos a realizar”, conta ela.

A força da gentileza

Em 1995, recém-formada e recém-casada, ela recebeu a proposta de montar a filial do escritório Demarest, um dos mais importantes do país, no Rio de Janeiro. “Para uma catadora de diamantes, vi ali uma linda oportunidade de tirar um projeto do papel, lapidá-lo e fazê-lo brilhar.”

Se hoje a questão das mulheres em cargos de liderança ainda é um desafio, imagine a situação mais de 20 anos atrás. Bel conta que o chefe a apresentava assim:

“Essa é a doutora Isabel, ‘o nosso homem no Rio’”.

Às vezes, clientes entravam na sala de reunião e questionavam: “Cadê o advogado?” Por isso, ela teve de aprender desde cedo a conquistar seu espaço, usando, em vez de força, gentileza.

No fim dos anos 1990, com as privatizações, o setor elétrico estava em plena transformação. E Bel se especializou no tema: rodou o país inteiro enquanto era criada uma nova regulamentação para o setor. O que a empolgava era participar da criação de algo novo. Lapidar.

Um encontro transformador

Foram mais de 15 anos trabalhando como advogada, em um ritmo acelerado. E Bel e o marido ainda tiveram três filhos em meio a essa agitação. Parecia que estava tudo pronto: ela tinha uma família, uma carreira consolidada… Quando ela chegou ao Rio, dividia uma sala com uma advogada. Quando voltou, já tinha montado um escritório com 80 profissionais. Aos poucos, ela foi perdendo o brilho nos olhos diante de tanta coisa pronta. Aparentemente, os diamantes já estavam bem visíveis.

Ela queria se reinventar, mas sem saber direito como. Até que um encontro, em uma quinta-feira qualquer de 2009, mudou a vida dela. Um Day1. Adiantada para uma reunião, ela parou o carro em frente a uma loja. O plano era fazer uma horinha. Ao entrar na loja, foi abordada por uma mulher.

— Acho que te conheço. O que você faz?

— Eu sou advogada

— Eu também! Aliás, era. Larguei tudo e agora vou vender roupa pela internet.

Bel ouviu a mulher falar com paixão do projeto, mas aí perguntou: Você já trabalhou com internet? Tem a plataforma? Já tem plano de logística? Tem time? As respostas eram “não”. Trocaram cartões. Será que ali havia um diamante?

Ao chegar em casa, comentou sobre o encontro com Paulo, seu marido, que participou da primeira onda de empresas de internet do país, no fim dos anos 1990. Uma referência no setor, fundador da empresa de investimentos A5 Capital Partners. Bel deu o cartão para o marido e pediu: “Fale com ela. Faça como se estivesse fazendo isso para mim”. Mas e se ela for uma louca?, ele perguntou. Ao que bel respondeu: “E se ela for outra catadora de diamantes?”.

Paulo falou com a mulher, gostou da ideia e se tornou o primeiro mentor e investidor-anjo de OQVestir.  Algum tempo depois, Mariana a chamou para tomar um café e entrar no projeto. O combinado era Bel ficar apenas por um mês — se não gostasse, seguiria na carreira de advogada. Só que já nos primeiros dias ela ficou completamente apaixonada.

“Vocês são loucas”

O início da jornada empreendedora, como sempre, foi uma rotina de quebrar pedras. Elas ouviram muito “vocês são loucas”. Imagine largar uma carreira consolidada para vender roupas pela internet — em um momento de crise econômica global, sem ter a experiência necessária, em um momento em que quase não havia lojas online desse tipo no Brasil.

“Exatamente quando você escuta ‘você é louca’ é que mora a oportunidade. Depois que todo mundo já entendeu, a oportunidade de ser pioneira já passou.”

Logo no começo elas perceberam indícios de que aquela era, de fato, uma boa ideia: novos clientes comprando e elogiando, marcas querendo entrar no site… Só que, elas sabiam, no e-commerce você precisa de investimento para escalar.

Um dia em 2010 um amigo comentou que um investidor americano estava interessado no modelo de negócios delas. Até aí tudo bem. A questão é que esse investidor estava no Brasil. E iria voltar para Nova York naquele dia. Bel e Mariana foram para o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, pegaram o primeiro voo que passava pelo Galeão, no Rio, e foram atrás do investidor.  O encontraram numa lanchonete do Bob’s. Fizeram a apresentação, contaram como queriam escalar, como iriam atingir o break even…

Até que no fim do papo ele perguntou qual a referência de negócios elas tinham, e elas disseram Netshoes, que na época era basicamente a única empresa grande que vendia moda por aqui. Surpresa: ele disse que era investidor da Netshoes e deu a elas seu cartão. Só aí elas foram procurar na internet e se deram conta de que aquele era o Lee Fixel, da Tiger, um dos principais fundos de investimento do mundo… E ele estava ali conversando com elas numa lanchonete.

Três meses depois, ele se tornou o primeiro investidor do OQVestir. Investiu numa empresa que tinha 5 pessoas em uma sala de 70m2. Comprou a ideia, o planejamento, mas principalmente o brilho nos olhos das sócias.

Com o investimento, o negócio cresceu a um ritmo acelerado: 700% em 2011. Elas tinham claro o que não sabiam, por isso foram trazendo mentores para o negócio e, o mais importante, montando um time de profissionais incríveis — Bel tem certeza de que, em um negócio, o que há de mais valioso são as pessoas: o time, os parceiros, os clientes.

Calma de mãe

E colocar isso em prática a ajudou a navegar por momentos dificílimos, como a chegada de fortes concorrentes. Um deles, investido por grandes fundos, começou a agressivamente procurar os parceiros de OQVestir e se ofereceu a pagar mais pela mercadoria, e pagar à vista. O time se desesperou, com medo de ser atropelado. Mas, como uma mãe que mantém a calma em meio à tormenta e leva os filhos no caminho de uma solução, eles conseguiram superar a dificuldade.

Os próprios parceiros não aceitaram vender para o concorrente porque preferiram manter o bom posicionamento e a boa parceria que haviam construído.

Em seis anos, OQVestir se tornou líder e referência no segmento, com faturamento de R$ 100 milhões. Aquelas cinco pessoas em uma pequena sala se trasformaram em um time com 150 profissionais. Os processos estavam estruturados, a empresa estava supercapitalizada… Bel começou a sentir que a roda girava sozinha, que o diamante já estava lapidado. Era hora de a companhia ter um executivo à frente para prosseguir com a expansão. Empreendedora, Bel decidiu que era hora de buscar outros diamantes e decidiu deixar o cargo de CEO.

“O que me me move é formar time, catar diamantes, construir sonhos… ainda tenho uma caixa cheia deles!”

Desde então, ela resolveu “olhar fora da floresta”, se abrir para o novo. Hoje, ela é conselheira da EY no programa Winning Women, é mentora da Endeavor, atua em Conselhos de Administração… Busca devolver ao ambiente empreendedor tudo o que aprendeu com a sua jornada. Contribuir para que o Brasil tenha mais referências de empreendedores, e principalmente empreendedoras, como ela. Sempre caçando outros diamantes.