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Day1 | Adriana Barbosa: na escassez, se reinventar

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Após superar muitos desafios, a criadora do principal evento de cultura negra da América Latina tem grandes lições para compartilhar. E sonhos ainda maiores para realizar.

Vendo as dificuldades da família para pagar as contas, a bisavó de Adriana Barbosa teve uma ideia: começar a vender doces e marmitex para ajudar nas contas. Sem entender nada de marketing, colocou a bisneta para distribuir panfletos, instalar faixas na avenida principal do bairro e divulgar os produtos. Sem saber o que era inteligência de mercado, pesquisava o preço da concorrência para definir o seu. E mesmo sem fazer um curso de liderança, era uma líder nata: envolvia a família inteira na produção.

Com o exemplo da bisa e de outras mulheres fortes da família, Adriana aprendeu a usar a escassez para se reinventar. Um aprendizado precioso que a hoje empreendedora teve de colocar em prática para superar as adversidades e criar a Feira Preta, o principal evento de cultura negra da América Latina, e ser considerada uma das mulheres negras mais influentes do mundo.

O caminho não foi, e ainda não é, nada fácil. Adriana conheceu a vulnerabilidade desde pequena. “Minha avó trabalhou por 60 anos para uma família, então minha mãe cresceu na casa dos patrões dela”, conta.

“O dinheiro nunca dava, então era minha bisavó que puxava a gente pra complementar a renda vendendo coxinhas, doces, marmitex”.

Graças à batalha de todos, a família morava em uma casa na região da Saúde, na zona sul de São Paulo, comprada com a ajuda dos patrões da avó. “Éramos a única família negra do bairro”, lembra Adriana.

Um sonho, uma demissão

A empreendedora lembra que levou algum tempo até perceber que era negra. “Foi um processo de construção da identidade que me levou a entrar em contato com a cultura afroamericana dos EUA”.

Ao mesmo tempo, já adolescente, ela passou a frequentar baladas black que aconteciam na Vila Madalena, em São Paulo. Foi lá que ela conheceu a Deise, que futuramente se tornaria sua sócia na Feira Preta.

Na época, Adriana já adorava música e cultivava o sonho de trabalhar com a primeira das sete artes. Um sonho que ela rapidamente realizou, sendo contratada em uma gravadora. Mas que rapidamente se desfez, também: “A indústria fonográfica começou a sofrer com a pirataria e, em 2001, fui demitida”.

Pelo menos uma coincidência foi positiva: a amiga Deise, que trabalhava com casting pra cinema, também fora dispensada.

A grande ideia após o arrastão

Mas elas não tinham tempo ou condições para ficar lamentando: cada uma foi se virar. “Íamos para as feiras de rua — a Deise vendia pastel, e eu com o brechó de troca, vendendo peças de roupa”, relata. Desse jeito, aos trancos e barrancos, Adriana ia pagando as contas.

Até que, durante uma manhã, a feira na Vila Madalena de que participavam sofreu um arrastão. Barracas foram destruídas, mas o prejuízo foi além: “Para essa feira, eu tinha me proposto a comprar mercadoria”, conta Adriana. “Não eram mais só minhas peças, eu tinha investido o pouco que eu tinha. Perdemos muita coisa”, lembra.

Mas ela tinha muito firmes dentro de si a resiliência e a força das mulheres de sua família. E decidiu ver o copo meio cheio.

Voltando da feira após o arrastão, conversando com Deise sobre como a situação estava difícil, ela teve o estalo: por que não fazer uma feira que tenha a ver com a cultura, com a história e com a estética negras? “A gente percorria as feiras de rua e já enxergava o potencial criativo dos expositores e artistas negros”, revela Adriana, “mas não havia oportunidade. Nós queríamos colocar a nossa potencialidade na rua. Ficamos empolgadas com aquela ideia”.

A primeira Feira Preta

Mas Adriana tinha consciência de que precisaria de patrocínio para estruturar melhor a ideia. Então, resolveram procurar empresas, e na raça.

“Na época, a Unilever estava lançando o primeiro sabonete para pele negra do Brasil. Fomos bater na porta deles. Levamos o projeto escrito em Word e o mapa da feira com os quadradinhos das barracas desenhados no Paint. O PPT não tinha imagem nenhuma, só texto. Mas fechamos o patrocínio, que foi de R$ 3.500. Era pouco, mas a gente nem sabia, pra gente era o máximo.”

Ao mesmo tempo, as duas bateram muita perna. Conversaram com 40 empreendedores, brancos e negros, que tinham a ver com o conceito da feira. Convidamos para serem expositores e o resultado foi ótimo: “Tivemos aderência de 100%, porque não tinha nenhuma parecida”, conta Adriana.

Assim, em 2002, nascia a Feira Preta na praça Benedito Calixto, em São Paulo. E foi um tremendo sucesso: “Seis mil pessoas passaram por lá. Ver aquela galera toda descendo a Teodoro Sampaio foi uma emoção enorme”, lembra a empreendedora.

Sucesso e perrengues

Mas a emoção durou pouco. No segundo ano, a subprefeitura de Pinheiros vetou a realização da feira, por conta de uma petição dos moradores. “Disseram que a praça não suportava um evento como aquele. Mas como ela suportava a feira de antiguidades de todo sábado e não a nossa, uma vez por ano?”

Adriana ficou revoltada; tentou reverter a decisão, mas sem sucesso. A solução foi mudar a feira para o estacionamento da Assembleia Legislativa. Mas a questão financeira era um empecilho: “Não tínhamos dinheiro, então tivemos que pegar um empréstimo para pagar o alvará”.

Apesar disso, a segunda edição também foi muito bem sucedida: 14 mil pessoas passaram pela Feira Preta. O ponto negativo foi São Pedro, que não colaborou: “Choveu demais”, lembra Adriana. “E foi muito emblemático, porque, com o vendaval, eu tive que segurar as barracas para elas não voarem”.

Além disso, ao final do evento, ela tinha que entregar o estacionamento limpo. “Eu já tava caída, toda molhada, tendo que varrer com os voluntários mais de 10 mil metros da Assembleia Legislativa, porque não tinha dinheiro nem pra contratar equipe de limpeza”, recorda, para então completar: “zero glamour”.

Fila de problemas no circo

Ali, Adriana tomou a decisão de não realizar mais a feira em locais abertos. Depois de pesquisar, constatou que o único lugar que comportava mais de cinco mil pessoas era a Academia Brasileira de Circo: “Um terrenão em que colocaram uma lona e cujo chão era todo de pedrinhas”. O problema é que não dava para instalar as barracas naquela superfície. A saída foi pavimentar o espaço, o que consumiu todo o capital reunido dos expositores.

Só que percalços maiores aguardavam na fila: a chuva novamente entre eles. Não deu tempo de secar o pavimento, o que aumentou ainda mais os custos com estrutura. Além disso, ao final da feira (que fora a primeira a cobrar entrada dos visitantes), Adriana abriu o caixa e tomou um susto: “A gente sabia que tinha levado uma quantidade de público e o dinheiro em caixa não batia”.

A conclusão óbvia foi óbvia: “houve furto”. Só que os custos com estrutura tinham sido muito altos, e ela saiu com uma dívida de mais de R$ 40 mil.

“Nessa hora, pensei em desistir.”

Superando o complexo de inferioridade

Mas um e-mail totalmente inesperado devolveu (um pouco de) esperança a Adriana. “Era da Artemisia e me chamava para uma seleção de negócios sociais de impacto. Eu nem sabia o que era, não sei como descobriram meu e-mail”, conta a empreendedora.

Adriana se inscreveu e, hoje, tem consciência da importância do processo pelo qual passou. “Foram dois anos de muito aprendizado, com uma imersão de capacitação e autoconhecimento”.

Foi quando ela se reconheceu como empreendedora pela primeira vez, quando passou a valorizar de fato o que estava construindo — e a si própria.

“Separei a Adriana da Feira, ganhei confiança na minha potência. Não aceitei mais patrocínio nenhum de R$ 3.500.”

Dupla jornada e depressão

A feira passou a se bancar, mas não à sua criadora, que tinha que complementar a renda com “freelas”.

Mas algo mudou essa configuração: a maternidade. Adriana tornou-se mãe, o que transformou totalmente sua visão de mundo. “Não era mais só eu. Eu não podia mais ficar comprando miojo, tinha que dar conta. Fui atrás de algo que me desse mais estabilidade e em 2014 arranjei um emprego formal. Nunca ganhei tão bem. Foram dois anos muito prósperos, mas era dupla jornada”.

Quanto à feira, as coisas não iam muito bem. Dois patrocinadores tinham pulado fora, e a receita de bilheteria havia diminuído. Como Adriana já estava com o negócio havia 15 anos, resolveu largar o emprego para se dedicar a ele.

Mas o futuro não reservava boas notícias a ela:

“A feira de 2016 não foi boa, e aí eu quebrei. Fiquei com dívida de R$ 200 mil. Tive que sair da minha casa e tirar minha filha da escola. Mudei minha vida completamente por conta dessa situação. Em 2017, bateu a depressão. Eu tava muito desanimada, muito enfraquecida. Mas eu precisava tirar força de algum lugar pra me reerguer.”

“Como você tá fina!”

A força veio de forma inesperada, mais uma vez: com uma ligação de uma amiga, que  foi logo falando: “Nossa, como você tá fina! Vai jantar com o Obama”. Adriana não entendeu nada, e amiga compartilhou uma nota do jornal “O Globo”.

A matéria mencionava seu nome junto ao de Lázaro Ramos e de Taís Araújo como os 51 negros com menos de 40 anos mais influentes do mundo segundo o Mipad, premiação mundial. O evento seria celebrado em um jantar com o ex-presidente norte-americano.

O problema é que, naquele momento, Adriana não tinha dinheiro “nem para ir a Santos”. Ela compartilhou a nota e a aflição com outra amiga, que rapidamente organizou um crowdfunding (secreto) para custear a viagem da empreendedora.

A arrecadação deu certo e ela foi. O Obama acabou não comparecendo, mas Adriana se conectou com organizações do mundo todo que compartilham de seu propósito.

“Esse foi meu Day1. Porque eu me perguntei várias vezes qual era o sentido de tudo que eu estava fazendo, mas depois de um dos anos mais difíceis que a gente passou, nosso impacto vem sendo reconhecido como nunca. A Feira ganhou mais força, começou a chamar atenção de várias empresas, teve programa de TV, capa de revista…”

130 anos de empreendedorismo

Hoje, Adriana tem plena confiança na potência afrodescendente brasileira; mas sabe que o olhar e a narrativa em relação à população negra precisa mudar. “Normalmente, fala-se do empreendedor negro em termos de ‘sevirologia’, na base do ‘se vira’. A gente de fato empreende muito no contexto de necessidade, por conta da escravidão. Empreendemos”.

Neste ano, o Brasil completa 130 anos da abolição da escravatura. Diante disso, Adriana lembra: “Nós somos empreendedores há 130 anos. Se você traça uma linha do tempo, desde as mulheres do tabuleiro da Bahia, muitas delas ainda escravizadas, saíam vendendo comida equilibrando seus tabuleiros na cabeça, e assim conseguiam comprar suas alforrias. Elas já eram empreendedoras”.

E completa:

“Minha bisa também ensinou a gente a empreender para ‘se virar’. Mas não precisa ser assim, a gente pode inverter essa lógica. Eu só queria fazer uma feira, acabamos criando um ecossistema. A gente abriu mercado, conectou setores, empreendedores passam a criar produto para essa demanda, falamos cada vez mais de diversidade, de inclusão. E meu sonho é que esse ecossistema se fortaleça para ser diferente não para as minhas bisnetas, mas para a minha filha.”

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