“Se a gente se unir, a gente muda esse país”: como multiplicar o número de mulheres de impacto

Camilla Junqueira
Camilla Junqueira Endeavor Brasil - Time de Conteúdo

O futuro é feminino e empreendedor. Mas ele só será construído com a colaboração de agentes públicos, mentores, investidores — e, principalmente, das empreendedoras.

Na semana passada, recebemos para um bate-papo aqui na Endeavor a mentora Isabel Humberg, fundadora do OQVestir. Durante a conversa com todo o nosso time, aproveitamos para fazer um questionamento que tem ficado cada vez mais forte, principalmente quando pensamos a Endeavor que queremos criar para o futuro.

“O que é preciso para termos mais mulheres liderando negócios de alto crescimento no país?”

Com a doçura que lhe é tão própria e uma boa dose de realismo, ela nos respondeu:

“Não existe uma resposta só. O ecossistema empreendedor inteiro está se perguntando a mesma coisa. O que nós já sabemos é que precisamos de mais referências positivas, mulheres nas quais possamos nos mirar. Nos próximos anos, se a gente conseguir responder a essa pergunta, podem ter certeza: a gente muda esse país.”

Bel tem toda razão. E a explicação vai muito além da representatividade de gênero. Aumentar a igualdade de gênero entre empreendedores de alto crescimento é favorável, antes de tudo, para o desenvolvimento econômico.

Por que precisamos de mais mulheres à frente de scale-ups?

As Scale-Ups são a saída para elevar a produtividade brasileira. Baseadas em um modelo de negócios escalável, são empresas de alto crescimento que geram empregos e buscam maximizar a eficiência. O impacto de organizações como essas é tão grande que mexe com todos os stakeholders — dos fornecedores aos funcionários –, criando um círculo de geração de valor muito rico para a comunidade local.

Quando olhamos, então, para Scale-Ups lideradas por mulheres, enxergamos como o desenvolvimento de lideranças femininas, a equidade de gênero e a diversidade em todas as suas dimensões criam organizações mais ricas e prósperas.

Uma pesquisa lançada pelo fundo de investimento americano First Round indicou que empresas com mulheres entre os sócios-fundadores performaram 63% melhor do que aquelas que tinham sociedade inteiramente masculina. Além disso, a Business Insider apresenta dados que indicam um aumento na lucratividade de 12% das empresas de tecnologia com liderança feminina, em comparação àquelas lideradas apenas por homens.

Em parte, o que explica essa diferença na performance é o poder que a diversidade tem na tomada de decisão das empresas. Segundo o relatório da Cloverpop, a diversidade de gênero aumenta em até 73% o sucesso da tomada de decisão porque são capazes de eliminar “pontos cegos” que podem corroer o crescimento de longo prazo.

Com essa clareza do porquê, podemos partir para o como. Antes de tudo, é preciso entender quais são os gargalos de crescimento das empreendedoras que estão liderando negócios de alto crescimento e em qual dimensão eles se manifestam: social, cultural ou pessoalmente.

Assim, somos capazes de unir forças do ecossistema inteiro — organizações de fomento, aceleradoras, mentores, investidores, governos e universidades — para, enfim, encontrarmos a resposta para a pergunta que fizemos à Bel. E assim multiplicarmos o número de empreendedoras de impacto no Brasil.

Mapa dos Gargalos de Crescimento das Empreendedoras

Não há dúvidas. Existe muito a ser feito para pavimentar o caminho de crescimento das empreendedoras. Mas, para além dos obstáculos externos, existe um espaço de transformação que depende inteiramente de nós, mulheres.

Desafios Pessoais

Toda grande empresa começa com um sonho grande. Antes de construir, é preciso cultivar dentro de si a vontade — e a confiança! — para criar um negócio de impacto. Esse movimento passa por uma certeza quase irracional que guia tantos empreendedores de que é possível realizar e abraçar o risco com coragem!

Não faltam exemplos de mulheres cujas trajetórias servem de inspiração para tantas outras que sonham em empreender. São histórias de superação como a das Empreendedoras Endeavor, Zica Assis e Leila Velez, do Beleza Natural. Exemplos de resiliência como o da Fabiana Salles, da Gesto Saúde, que pivotou o próprio negócio três vezes antes de validar o modelo. E também referências de coragem como a empreendedora Juliana Freitas, da Fortbrasil.

Uma pesquisa da Endeavor lançada em 2013 identificou os 5 comportamentos indispensáveis a quem empreende, sendo eles:

  1. Otimismo
  2. Autoconfiança
  3. Coragem para aceitar riscos
  4. Desejo de protagonismo
  5. Resiliência e persistência

Essas 5 características funcionam como uma engrenagem que coloca o comportamento empreendedor em movimento. Se uma delas está enfraquecida, como a autoconfiança ou a persistência, sua história empreendedora pode terminar antes da hora ou ainda não sair do mesmo capítulo. Mas, se esses comportamentos são exercidos na máxima potência, eles se manifestam com uma energia que coloca uma empresa em movimento, crescimento e prosperidade.

Se você empreende, abra espaço para essa reflexão. Converse com seus sócios, busque redes de suporte, fale com outras empreendedoras, e descubra quais comportamentos têm sido sabotadores e potencializadores na sua jornada como empreendedora.

Para além da visão pessoal, existem também gargalos próprios do ambiente. Entender quais são os mais significativos e as razões que os fazem existir é o primeiro passo para modificá-los.

Desafios de Ambiente

1) Acesso a Crédito

Passada a fase de startup, um negócio precisa de capital para crescer, seja para manter o ritmo acelerado da expansão seja para superar a velocidade da concorrência. Porém, o que as pesquisas apontam é que, para as mulheres, é mais complexo acessar crédito nos bancos, se relacionar com os fundos de investimento e, ainda, se dispor a assumir uma dívida em uma cenário de incerteza.

Por que isso acontece?

As mulheres têm dificuldade de fazer financiamentos e empréstimos nos bancos

“Em todo o mundo, estima-se que as mulheres sejam proprietárias de apenas 1% das escrituras de propriedades registradas (IFC, 2014).”

As mulheres têm dificuldade de acessar capital por investimento

2) Networking

Segundo o Female Entrepreneurship Index 2015, o pilar de Networking para as mulheres brasileiras é um dos mais baixos do mundo, em parte porque ele considera a presença de exemplos femininos próximos que inspiram a continuar empreendendo.

Por que isso acontece?

As comunidades de troca e mentorias não são tão conhecidas pelas mulheres

3) Gestão Financeira

Enquanto o acesso a crédito e o networking são ativos da porta para fora de um negócio, as finanças são o coração da companhia. Mesmo que você tenha um excelente produto, se não tiver controle do fluxo de caixa ou a visão de capital necessário para crescer, sua empresa pode morrer prematura, sem fôlego financeiro. A mentora Bel Humberg conta que uma das mentorias mais comuns que faz para empreendedoras é explicar conceitos de DRE, Balanço e os indicadores financeiros mais importantes para que elas tenham mais proximidade e controle dessa gestão.

Por que isso acontece?

Baixa autoestima financeira

Falta de controle ativo das finanças

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4) Desafios socioculturais

Já estamos em 2018, é verdade. Mas ainda existe um peso relativo a tudo aquilo que é esperado de uma mulher na sociedade. Daniele Botaro, da consultoria ImpulsoBeta, dá um bom exemplo disso. Se um homem decide passar quatro meses em Cingapura em um programa de incubação da sua startup, a decisão é vista como uma conquista na sua jornada como empreendedor. Já se a mulher decide o mesmo, deixando marido e filhos em casa, a comemoração se transforma em julgamento e condenação.

Por que isso acontece?

A mídia reforça o estereótipo do empreendedor homem

Existe uma responsabilidade desproporcional de tarefas

Essa diferença é herdada historicamente, e constitui o modo de viver como conhecemos hoje. Mas cabe a nós modificar esses padrões para naturalizar essas decisões e suavizar as expectativas de gênero.

A empreendedora Mariana Penazzo, da Dress and Go, conta que essa cultura começa a mudar em casa. “A primeira vez que meu pai trocou uma fralda na vida foi a da minha filha. Hoje, meu marido dá de mamar pela manhã, troca o turno com a babá a tarde e faz de tudo também. Não existe isso de “ajudar em casa”, os dois abrem mão de muitas coisas para distribuir as tarefas com equilíbrio.”.

5) Estratégia de crescimento e nível de ambição

Os piores índices do Brasil no Female Entrepreneurship Index de 2015 estão relacionados à internacionalização dos negócios e à expectativa de crescimento, que considera empreendedoras que planejam contratar 10 pessoas e crescer pelo menos 50% nos próximos 5 anos.

Por que isso acontece?

Por se concentrarem em setores de serviços pessoais e varejo, os modelos de negócios são mais difíceis de escalar e, por consequência, o potencial de crescimento é menor.
Em algumas etapas de crescimento, é necessário viver para o negócio, tamanho o volume de desafios e atividades que se desenrolam com o crescimento. Por conta disso, o crescimento é limitado pela necessidade das próprias empreendedoras de manterem uma rotina mais flexível.

Está em nossas mãos!

O que os empreendedores mais nos ensinam é que o melhor jeito de resolver grandes problemas é quebrá-los em problemas menores, que são solucionados um a um. Com essa visão, podemos entender como cada agente do ecossistema contribui para atenuar um dos gargalos de crescimento das empreendedoras, usando aquilo que sabe fazer de melhor: conectar, apoiar, capacitar ou investir.

Começam a surgir exemplos de iniciativas que seguem essa premissa. Para aumentar o acesso a capital das empreendedoras, já existem projetos como o W55 e o MIA (Mulheres Investidoras-Anjo), especializados no investimento de negócios liderados por mulheres. Além disso, existe espaço para a criação de eventos ao estilo Demo Day com pitch de negócios femininos para VCs brasileiros.

Para facilitar a rotina familiar, já existem espaços de coworking como o MOMA, em Porto Alegre, com espaço kids para cuidado dos filhos. Em Nova York foi lançado também um coworking só para mulheres chamado The Wing, que conta com espaço de beleza e sala de amamentação e só tem fornecedores cujas empresas são lideradas por mulheres.

Como a Endeavor pode contribuir?

Na Endeavor, nosso modelo de impacto é impulsionar os protagonistas da mudança, multiplicando seu poder de transformação. Para isso, temos programas de aceleração para Scale-ups que ajudam empreendedores por meio de diagnósticos das dores de crescimento, mentorias e conexões transformadoras.

O poder dessas redes é tão forte que contribui na superação de vários dos desafios mencionados acima: a busca por investidores e parceiros, ampliação do networking, capacitação financeira e até o desenho da estratégia de crescimento. No programa Scale-Up Endeavor RS, por exemplo, a empreendedora Barbara Mattivy da Insecta Shoes, encontrou uma mentora para a vida inteira. Hoje, mesmo depois do programa acabar, elas continuam conversando sobre os planos de crescimento, a tomada de decisão e os desafios do dia a dia.

Historicamente, menos de 10% do total das empresas do Scale-Up Endeavor têm sócias mulheres. 2018 é o ano de mudarmos essa estatística. E isso já está acontecendo. Na seleção do programa Eurofarma Synapsis que aconteceu ontem, dia 7/3, mais de 30% das empresas escolhidas têm fundadoras mulheres. Esse é um dado que queremos ver, cada vez mais, crescendo.

Por isso, se você conhece uma empreendedora que está liderando um negócio inovador, com potencial de escala e impacto, conte para ela sobre os programas da Endeavor e encoraje sua inscrição.

Nós já sabemos que o futuro é feminino, mas ele também é empreendedor. Temos a certeza de que ele só será possível com a criação de comunidades diversas que se ajudam a crescer. E nós, aqui na Endeavor, vamos unir esforços com uma rede de organizações, investidores, mentores e empreendedores para construir essa história.

Esse texto foi escrito com a colaboração de mulheres admiráveis, que protagonizam os estudos e o cenário do empreendedorismo feminino do Brasil. Deixo um agradecimento especial para a Adriana Carvalho, da ONU Mulheres, a Daniele Botaro, consultora da ImpulsoBeta, as empreendedoras Bárbara e Mariana da Dress and Go, Raquel Teixeira, líder do programa Winning Women e a Renata Rebocho, fundadora da Quero Educação.

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