Nosso futuro: a mudança precisa ser feita agora ou ficaremos para trás

Marcelo Salim
Marcelo Salim

Matemático pela UFRJ, Meste em Engenharia de Sistemas pela COPPE, com cursos de especialização em “Negócios” por HBS e Stanford e em “Empreendedorismo” por MIT e Babson College. Marcelo foi pesquisador na COPPE, no Centro Científico IBM e fundador de empresas no Brasil e no exterior. Foi selecionado "Empreendedor Endeavor“ (2000) e eleito "Entrepreneur of the Year" (2001) entre toda a comunidade Endeavor no mundo. Foi escolhido "Empreendedor do Novo Brasil" (2002) em concurso nacional da revista Você S.A.. É sócio de empresas em diferentes segmentos do mercado e membro do conselho de administração de empresas nacionais. Criou o CEI – Centro de Empreendedorismo Ibmec, é professor da FGV-RJ, PUC-RJ, e FDC. Participou da criação do Startup Rio e é seu Diretor de Educação, um programa estadual para geração e desenvolvimento de startups digitais inovadoras. Casado, três filhos, torcedor do Botafogo.

O empreendedor brasileiro encontra diversas dificuldades e amarras ao abrir um negócio. A hora de mudar é agora.

A iniciativa privada precisa deixar seu eterno papel de “pedra” e arregaçar as mangas para ajudar na função de “vidraça”. O caminho, de um modo ou outro, passa pelo foco no maior motor do crescimento em qualquer parte do globo: a criação de negócios inovadores que geram emprego, aumentam arrecadação e crescem para se tornarem globalmente dominantes. São aquelas empresas que passam rapidamente da fase de Startups para Scaleups – empresas com crescimento rápido e sustentável. Não basta o negócio ser bom e bonito; tem de ser escalável.

Essas tais Scaleups contratam 100 vezes mais que o restante das empresas, ou seja, enquanto uma Scaleup contrata, em média, 31,3 novos funcionários por ano, a média do restante das empresas é de apenas 0,34 funcionários. Vale lembrar que Scaleups não são necessariamente grandes empresas, muito ao contrário, 92% delas são pequenas e médias.

O movimento empreendedor é uma das maiores forças isoladas para impulsionar a economia e mobilidade social.

Como um empreendimento é centrado em recursos disponíveis, em uma oportunidade e no time de pessoas que tenciona explorá-la, as recompensas vêm muito mais em função de talento, capacidade e, principalemente, qualidade da oportunidade escolhida. É o sonho de consumo de quem valoriza a meritocracia.

O Vale do Silício não é replicável, mas serve de orientação sobre o que pode e deve ser feito.  A região gasta US$ 50 bilhões por ano para achar “unicórnios”, aquelas empresas especiais que saem do zero para, em pouco tempo, dominarem o mercado.  Se esse investimento em inovação para mudança constante parece grande e exagerado aos olhos desatentos, melhor analisar o custo da não-mudança, ou, em outras palavras, a chance de um país assistir passivamente economias que antes eram menores e inexpressivas dominarem o mundo.  Investimentos reais e consideráveis são muito necessários e precisam ser feitos agora!

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Para que se tenha uma ideia, hoje existem no Brasil 33.374 empresas de alto crescimento, 0,7% do total de ativas, e elas geram 42% dos novos empregos criados ao ano. Imagine o impacto para o Brasil em várias dimensões se, por meio de investimentos, melhores práticas e gente certa no lugar certo, conseguíssemos triplicar esse quase 1% que, contra tudo e todos, ainda consegue crescer?

Cultura é uma barreira também relevante que precisa ser endereçada. A palavra que é derivada do latim colere diz respeito a cultivar.  Quando olhamos nossos conjuntos de principais crenças, comportamentos e mesmo conhecimentos específicos, estamos ainda longe do bom cultivo de um ambiente propenso à criação e desenvolvimento de negócios inovadores e escaláveis.

A aversão ao risco e a visão do empresário mais como vilão do que como benfeitor atrapalham consideravelmente o desenvolvimento das atividades empreendedoras.

A falta confiança entre as pessoas é notável. Confiança é um ativo tão importante ao país quanto os seus recursos naturais.  Vale a máxima de que empresas não são CNPJs, mas conjuntos de CPFs, com as interações acontecendo regularmente entre pessoas que representam interesses corporativos. Se essas pessoas não confiam umas nas outras, o processo fica emperrado com muitos ruídos, com necessidades de checagem e rechecagem em cada etapa, aumentando consideravelmente o custo das transações em todos os sentidos.

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Temos um longo caminho pela frente, mas o simples fato de sabermos para onde queremos ir e como devemos ir pode facilitar nossa jornada.  Não se trata de se devemos fazer, mas de como fazer a partir de já. Cada tempo perdido significa um atraso irrecuperável de algumas gerações.