Você já se perguntou por que
nosso conteúdo é gratuito?
Somos uma ONG de fomento ao empreendedorismo de alto impacto que capacita
4 MILHÕES
DE EMPREENDEDORES
A CADA ANO
Faça a sua doação e contribua para continuarmos
este trabalho em 2016!

Administrando a Desconfiança

LoadingFavorito

Não deposite toda a confiança em quem você contrata, mas também não acredite que você pode tudo sozinho!

Dois casos com os quais me deparei recentemente são exemplos simbólicos de uma questão muito comum entre empreendedores bem-sucedidos.Preview

O primeiro foi de um empreendedor da indústria de infraestrutura que, por ter desenvolvido um método inovador em seu seguimento, cresceu absurdamente umas 50 vezes seu negócio, em menos de cinco anos. A empresa estava tão grande que ele resolveu profissionalizar, como indicavam vários especialistas. Colocou um novo CEO, com excelente formação acadêmica, para entupir de gestão uma empresa em um estágio que realmente a demandava. O empreendedor, alegando não atrapalhar a profissionalização, afastou-se do negócio. Estágio atual: em menos de um ano da entrada do CEO, a empresa está à beira da falência.

Vamos ao segundo caso. Uma empresa do setor de alimentos, também reconhecida pelo seu empreendedor, cresceu seu negócio absurdamente em menos de 10 anos e se transformou em uma participante relevante do setor. Devido ao crescimento do negócio, trouxe executivos do mercado, foi para o conselho e colocou um CEO. A profissionalização foi razoavelmente bem sucedida e o negócio conseguiu manter-se em crescimento. O empreendedor, agora no conselho, resolveu investir em um negócio de suporte a sua operação. Esse processo foi excepcional. Resolveu entrar de vez no negócio e acoplá-lo ao anterior, mesmos diante dos avisos dos especialistas que o rodeavam. Em menos de um ano, os ativos do negócio principal foram colocados como garantia devido às perdas significativas da nova ideia.

Dois casos distintos que carregam a mesma essência: a dose de confiança ou de desconfiança que empreendedores aplicam em seus negócios. Vamos explicar melhor. Empreendimentos, quando criados, se assemelham muito aos seus donos. Claro, são suas crias. Eles se preocupam em nutri-las e não medem esforços para que elas sejam bem-sucedidas. Muitos não aguentam esse esforço e ficam no caminho. Outros acertam e começam a crescer. Alguns exponencialmente. Nesse momento, o empreendedor tem dois contextos para gerenciar.

A empresa necessita de um mínimo de gestão para permitir ser eficiente em tudo aquilo em que ela se tornou. E não preciso citar o quanto é comum ver empreendedores que passam por dificuldades em profissionalizar seus negócios. No fundo, a sensação é: “Como alguém pode cuidar da minha criação melhor do que eu?”. A alta dose de desconfiança, muitas vezes inconsciente, impede o negócio de prosperar. Só que o empreendedor também não consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo em um negócio cada vez maior. O resultado disso todos sabem.

Por outro lado, o empreendedor não pode abandonar sua cria de uma hora para outra. Como já comentei, até um estágio de profissionalização, a empresa se confunde com seu empreendedor. Ele, na maioria das vezes intuitivamente, fez com que ela fosse bem-sucedida. Ele conhece os detalhes, imprimiu o seu jeito de ser na forma de se relacionar com clientes, na operação de seu negócio e na forma de gerir suas finanças, criando os diferenciais que fizeram a empresa ser bem-sucedida.

Quer ver na prática?

Veja o primeiro caso. O empreendedor entregou o negócio para o novo CEO e se afastou de vez! Ele, que sempre estava à frente de tudo, cuidando dos detalhes e diferenciais que criou…  O CEO deve ter adorado ter campo livre para gerir o negócio. E quem, então, sabia de todos os detalhes que antes o empreendedor tocava? Aí entra a dose de desconfiança. Óbvio que tem de injetar gestão, mas qual a quantidade de desconfiança que tenho de colocar no sistema para garantir que a essência da organização não seja perdida?

É preciso ter o cuidado de institucionalizar aquilo que representava o diferencial da empresa e que estava com o empreendedor. Isso significa ter a presença do empreendedor e, com o tempo e devida compreensão, transformar aqueles aspectos em políticas, práticas e recompensas que estimulem manter na empresa aquilo que estava na figura de quem a criou e/ou a desenvolveu e que são necessários para o negócio

A dose de desconfiança vale também para o próprio empreendedor. É muito comum ver empreendedores que, ao passarem por um período de crescimento significativo, envolvem-se nas armadilhas do ego! O crescimento substancial da empresa alimentou a alta confiança. Pode-se construir um “império” e por que não arriscar-se mais? Bem, vamos à situação do nosso segundo caso. Um confiante envolve-se com o que não conhece, cria novos produtos, sem uma análise adequada e apropriada das margens ou mantém produtos ultrapassados que não possuem mais valor ou compra empresas por impulso, achando que são invencíveis, etc. Em resumo, põe tudo o que construiu em risco.

Vejo bastantes experts em empreendedorismo falando: “Sem confiança, não existe progresso”, “A confiança é a chave das relações entre pessoas nas empresas” e “A confiança é o que garante o engajamento das pessoas”. Não tenho dúvida dessa perspectiva. Mas pouco as pessoas têm falado dos limites da confiança. Não posso confiar a um recém-formado no ensino fundamental, a construção de um prédio. Criar mecanismos de desconfiança é garantir que empreendedores e empresas não corram riscos desnecessários em momentos delicados, nos quais o contexto exige que sejam bem cuidados.

Significa, nos exemplos em que citei, que empreendedores precisam desconfiar que a essência da empresa seja rapidamente absorvida pelos profissionais que vieram de mercado. Ou desconfiar que ele próprio é capaz de tudo. Claro, na dose adequada! Uma alta dose de desconfiança não permite que a empresa siga seu caminho de profissionalização e que o empreendedor possa no futuro ver sua cria livre no mundo, crescendo, levando seus produtos para muito mais clientes sem perder a essência que a criou.

Dicas para gerir adequadamente a desconfiança na empresa.

Para negócios que estão se profissionalizando:

1) Se você desconfia que os profissionais que vieram do mercado terão dificuldades em replicar você nas relações com clientes, nos detalhes de sua operação e na gestão financeira do negócio, entre outras, então procure ou peça ajuda profissional para compreender o que você desenvolveu de na sua empresa que a transformou no que ela é hoje (valores, hábitos, práticas, atitudes, ferramentas, soluções etc);

2) Analise cuidadosamente o que faz sentido manter, mudar, abandonar ou transformar;

3) Com a ajuda de seus profissionais ou de consultoria, crie políticas, processos, modelos de reconhecimentos e indicadores que institucionalize a prática desses diferenciais;

4) Acompanhe a implementação desses elementos e, logo na sequência, a execução do dia a dia deles, sempre de forma gerencial por meio de indicadores. Sempre observando e nunca assumindo o papel dos líderes ou das pessoas. Distancie o tempo do acompanhamento, à medida que você estiver confortável com o andamento desse processo;

Para donos de negócios em alto crescimento:

1) A criação de um conselho consultivo é uma excelente forma de ficar atento  a si mesmo. Crie um ambiente de transparência que permita que os membros fiquem confortáveis em alertá-los de altos riscos;

2) Você tem aquele amigo que sempre te contrapõe? Se não tem o procure. Empreendedores emblemáticos normalmente possuem um oposto próximo que o contrapõe em todos os seus movimentos. Isso não significa que você não irá correr riscos, mas evitará que você caia, de corpo e alma, ao extremo em suas loucas ideias e evite enrascadas.

 

Cláudio Garcia é presidente da DBM na América Latina, Líder Global da prática de Desenvolvimento de Talentos, e também escreveu sobre A Retenção de Talentos.

, LHH | DBM Am. Latina, Presidente
Claudio Garcia ocupa a posição de presidente para o Brasil e América Latina da DBM, empresa global especialista em transformação e transição de pessoas no ambiente empresarial.  Atua na companhia desde 2006 onde também já ocupou a Diretoria de Relacionamento. Antes da DBM, trabalhou na Hedging Griffo, do segmento  financeiro, na Rede Gazeta, do segmento de mídia e comunicações, no Hopi Hari, o maior parque temático da América Latina e na Brahma, hoje AMBEV. Claudio é formado em Engenharia Civil, com pós-graduação em Gestão de Negócios.

Deixe seu comentário

Parceiros
Criação e desenvolvimento: